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3:44 PM
Lembranças de um mestrando – Parte II
O fim da tarde caía sobre os telhados de Taguatinga. Eu e ela descansávamos abraçados e silenciosos. A nudez não era incômodo, éramos dois amantes que se entrelaçavam. Na janela, um batalhão de cores, vermelho, rosa, púrpura, invadia o quarto, fazendo figuras nas paredes.
Novamente olhei para aqueles belos olhos. Até hoje não sei de que cor eram, se eram cinzentos, negros ou castanhos. Acho que eram cinzentos.
Estranho, uma sensação completa de relaxamento, uma compreensão profunda do ser do outro. Bem, eu ainda não compreendia essas coisas. Precisaria de muitos meses de treinamento para entender que aquela tinha sido uma das mais poderosas e simples técnicas da Ordem. Entretanto, me perdia naquele par de olhos.
Foi então que percebi que aquele abraço era absurdo. Na verdade, toda aquela situação era absurda. Sem conseguir me conter, perguntei:
– Bem, acho que não fomos apresentados. Meu nome é...
– Eu sei quem você é, Roger. – ela me interrompeu, completando em seguida – Ou será que eu devia lhe chamar de Herói?
Mais uma vez o meu sorriso sarcástico. Ainda nua, ela levantou da cama, se espreguiçou e vestiu com um robe. Andou pelo quarto e parou a observar a tarde pela janela.
– Ora, – disse eu – assim eu fico em desvantagem, não é? Acho que mereço saber ao menos o nome da dama de belos olhos.
– Você sabe, não sabe, Roger? Pense um pouco que você terá a resposta.
Hum, como eu saberia seu nome? O que esta pessoa queria me dizer? Deixei a intuição me guiar.
– Bem, Patrícia, é esse o seu nome, não? – ela confirmou com a cabeça. Eu ainda não tinha entendido como tinha adivinhado, mas continuei – Diga-me, porquê?
– Porque assim estava escrito, Herói.
– Se assim está escrito, porque devemos encenar?
– Para que tudo se cumpra conforme foi dito pelos nossos antecessores. – Mais uma vez meu sorriso, quando aqueles olhos me observaram.
Acredito que vocês não entenderam muito desse pequeno diálogo. Na verdade, eu e Patrícia tínhamos um relacionamento bastante lacônico e conversávamos mais por metáforas. De certo modo, um sempre sabia o que o outro estava pensando.
Levantei e a beijei profundamente. A excitação crescia enquanto nos olhávamos nos olhos. Eu disse:
– Que Ordem?
– Dragão.
– É proibido, não é? Somos dois mestrandos de ordens diferentes. Isso pode ser perigoso.
– E daí? Se está escrito, está escrito.
– Você segue ordens de algum superior?
– Você sabe que não.
– Então, porque me escolheste?
Como resposta, ela me beijou demoradamente, me jogando sobre a cama. Após a queda do robe, vi seus pequenos seios e a barriga macia e sensual. Pensei em beijá-la no pescoço, quando veio um novo estremecimento. E uma nova revelação.
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O quarto desapareceu e foi substituído por uma visão conturbada. Eram muitos soldados que se batiam numa batalha feroz. De um lado, um exército regular, com tanques, metralhadoras e fuzis. Do outro, cidadãos com armas improvisadas, pedras, paus. Muitos mortos nas ruas, as moscas pousavam no chão, imundo de sangue e nos corpos em decomposição.
E eis que do meio dos populares surgem cinco vestidos em armaduras. Eles levantam cinco espadas e correm na direção do exército regular. E, no trote, sendo alvejados por balas, gritam desencontrados. De repente, soltam grandes golpes poderosos e avançam sobre os militares.
O primeiro causa um tipo de terremoto, rachando o chão e assustando os soldados. O segundo causa um grande vendaval, varrendo soldados em todas as direções. O terceiro, causa um dilúvio e, com seus raios fulmina dezenas de soldados. O quarto, com a força de vários homens joga os tanques sobre os soldados, matando vários. O quinto e últimos dispara poderosos raios de fogo, destruindo os adversários
E, os populares avançam, gritando palavras de ordem para os soldados. Estes, correm assustados, muitos se rendem. Porém, do oeste surge um grande dragão alado, de cinco cabeças. De cada uma das cabeças sai o poder de cada soldado desconhecido.
Acuados, eles se rendem, correndo. O povo então começa a adorar o dragão, rendendo-lhe homenagens. Porém, do meio da multidão surge um jovem sem armadura e sem poderes. Ele carrega uma vara de bambu na mão e investe contra o dragão, sendo repelido pela multidão enlouquecida.
Ele, sendo linchado pela multidão tem força suficiente para lançar a pequena vara contra o dragão, acertando-o em um dos olhos. E, o dragão, assustado, contorce-se de dor. Do meio da dor, é ouvido um choro angustiado. O dragão era apenas um bebê humano, com sorriso satânico e olhar infantil.
A multidão tenta agradecer ao jovem pela revelação, mas percebe que ele está morto. E, todos choram convulsivamente.
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Levanto-me assustado. Meu peito está melado de suor. Olho nos olhos da Patrícia e vejo eu ela também chorava. Compreendi tudo.
Dei-lhe um último beijo, me vesti e saí, sem despedidas. Era já escuro quando consegui pegar o ônibus que me levaria para casa.
(Continua)
Rabiscado por Poeta Matemático
*Esse
layout é uma criação exclusiva de Bruno Maximus*
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