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7:33 PM

Parte I

Era o mês de março do ano de 1999. Mais precisamente, era dia 27 e eu andava pelas ruas tumultuadas e cheias de gente do centro de Taguatinga. E, desde os últimos acontecimentos aqui narrados, se passaram dois anos intensos.

Havia saído da Ordem do Guerreiro em um momento meio obscuro, mas isso vai ficar claro mais pra frente. Na verdade, desde que tive minha briga com o Ricardo, eu mudara bastante. Mais alto, minha magreza proeminente demais, o gogó saliente demais, os ombros ossudos demais...

O traço mais marcante deste novo Roger era o sorriso um pouco sarcástico, petulante e um tantinho quanto satânico, às vezes. Eu vivia tempos difíceis, mas aquela foi, sem dúvida, uma das épocas mais felizes de minha vida. Novos óculos, mais finos, uma barbicha, na verdade no máximo uma penugenzinha, as calças jeans justas demais, deixando entrever as nádegas volumosas e as coxas desproporcionalmente grossas. Nessa época aprendi a tocar violão, a olhar as pessoas de cima e que as mulheres gostam mais de você quanto mais diferente do habitual você é.

E, nesses tempos tempestuosos, eu era um contra-exemplo fenomenal. Meus amigos se matavam de estudar nas matérias, enquanto eu lia Maquiavel, Fernando Sabino, Castro Alves, Sidnei Sheldon, Irving Wallace, Hemingway e tantos outros. Eu me orgulhava de jamais perder tempo com aquela mediocridade que os professores chamavam de ensino. Por isso, tornei-me um pouco sádico em minhas colocações.

Não perdia uma oportunidade de colocar meus professores em condição constrangedora, humilhante. Muitas vezes, sabia de antemão a resposta das perguntas e, por isso as emendava com outras perguntas. Alguns deles se irritavam, outros saíam de sala. Teve uma, de Química que até saiu do colégio. E, sempre via nessas minhas pequenas atitudes algumas vitórias.

Por esse tempo, comecei a mexer com o movimento estudantil. Nunca me apaixonei por UNE, UBES, UJS ou qualquer dessas entidadezinhas medíocres. Eu ia lá só pela ação e o ano de 1999, particularmente, foi bem agitado. Greves, manifestações pela defesa da educação, pancadarias com a polícia: eu estava em todas. Minha época de punk era a época da contestação com a polícia, de sair batendo de frente nos escudos, de jogar pedras e pedaços de pau, de sentir o cheiro do gás lacrimogêneo. Eu achava magnífico, na mediocridade habitual, minhas pequenas batalhas com a polícia eram o auge. Fui até pra delegacia uma vez, num desses momentos de fúria.

Nos momentos mais fortes, eu e outros alunos, na maioria vindos do Grêmio Estudantil, invadíamos as salas durante as aulas e decretávamos paralisações dos alunos. Nos sentávamos em frente a direção e exigíamos o direito de sair para fechar o trânsito. Quando não éramos atendidos era divertido. Abaixávamos nossas calças na frente do diretor, abríamos o portão na marra...

Na verdade, hoje olho essas pequenas coisas com outros olhos. Era uma infantilidade muito grande achar que isso era contestação verdadeira. Pra mim, era uma maneira de liberar hormônios em ebulição, mas eu não sabia disso ainda. Apesar das lembranças deste tempo, acredito que tive sorte de sair ileso e com a ficha limpa na polícia depois desses anos de secundarista. Ah, não disse ainda, mas contava nessa época 14 anos, estava nos primeiros dias do segundo ano do segundo grau e, como acho que vocês devem ter percebido, eu era um jovem um tanto quanto precoce.

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Pois bem, nesse dia 27 de março, eu andava pelas ruas da Praça do Relógio, no Centro da cidade satélite de Taguatinga. Meu colégio fazia fronteira com essa importante praça e ficava num dos lugares mais pitorescos e movimentados do Distrito Federal. O centro de Taguatinga é conhecido pelo comércio. Lá existem duas feiras, vários supermercados, lanchonetes, bares e, como não poderia deixar de ser, puteiros.

E havia várias ruas onde as prostitutas ofereciam seus serviços. A rua mais próxima era a das mais velhas, decadentes. A rua de cima era domínio exclusivo dos travestis e congêneres. Já a outra, que tinha hotéis melhores, era a das meninas mais jovens, com mais corpo e mais caras. Claro, nunca me interessei e deitar com prostitutas, mas eu gostava muito de conversar com elas. As putas mais velhas tinham muitas histórias engraçadas, de mulheres entaladas, de deputados bêbados, de noites de orgias sem fim. O mais engraçado era como todas as pessoas passavam desviando daquelas senhoras e eu, pra contestar, fazia questão de cumprimentá-las, saber como ia o dia e como tinha sido a noite.

Havia também os mendigos e estes eram muitos. Havia os feirantes, os comerciários, os boticários, os dentistas e as Casas Bahia. Havia o fórum, a Administração Regional, as casas de show, outras praças próximas onde se tocava violão e bebia-se o bom vinho Canção branco suave. No meio desta multidão de pequenos seres apaixonantes, batedores de carteira, travestis, cafetinas, outros malfeitores e, é claro, transeuntes normais que eram a maioria que se perdia na multidão, eu andava.

Nesta tarde, um pouco nublada, eu estava vestido com minha indumentária básica: jeans, camiseta branca do colégio, camisa de flanela (nessa época eu ouvia muito Nirvana e outras bandinhas de grunge) e tênis, além da inseparável mochila e andava absorto pelas ruas, sentindo uma torrente de sensações. Ah, como eu gostava daquela multidão nauseabunda! Como eu gostava das cusparadas dos velhos, da pressa das senhoras, das bundas arredondadas e dos peitinhos periformes das mocinhas dos colégios próximos! E como eu me encantava com aquela dança surda e habitual, com as pessoas e seus rituais cotidianos, a indiferença daquela multidão de pessoas absolutamente iguais, egoístas e suas vidinhas mais ou menos! Como eu me achava superior a elas...

E como eu estava errado...

Porém, minha contemplação habitual, muito influenciada pelos ensinamentos da Ordem, foi interrompida por um estremecimento fora do comum. Todos os meus pêlos se eriçaram e, após alguns passos, parei, com os olhos bem abertos e a respiração irregular. O que tinha sido aquilo? Que sensação absurda de quase morte era aquela?

Preparei minha intuição. Era preciso concentrar todo o corpo para compreender o que tinha se passado. Assim percebi que o motivo do estremecimento estava ali, nas minhas costas, a alguns passos. Lentamente, com os arrepios ainda mais fortes, me virei na direção em que a intuição me apontava e vi uma jovem de seus dezesseis anos que também estava parada e virada em minha direção. E reconheci aqueles olhos.

De repente, o resto da praça pareceu parar. Não percebi as pessoas que iam e vinham, o barulho dos carros, a ciranda cotidiana. Éramos ela, eu e o vento que soprava, levantando minha sobre-camisa e os cabelos negros e compridos da jovem de bonitos olhos. Era uma comunicação espetacular. Éramos íntimos seres que só tinham se visto uma vez. Agora tudo estava claro, ela também era da Ordem.

Olhando-a, senti segundos de indecisão. Era aquele silêncio constrangedor de duas almas que se conhecem naquele segundo.

Então, uma resolução forte toma conta de meu corpo e do dela e caminhamos para nos encontrarmos. Nos meus lábios, meu marcante sorriso, um pouco sarcástico e petulante. Paramos, em frente um ao outro, tão próximos que podíamos sentir o cheiro, ouvir o som da respiração e imaginar no peito o coração descompassado. E, tão forte como o primeiro olhar, os olhos se fecharam num beijo estelar.

Eis o amor à segunda vista...

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E o beijo durou, quase eterno. Eram apenas lábios, depois mãos e depois almas que se entrelaçavam. Sem nos falar, sem perda de tempo, ela me pegou pela mão e me levou com ela pelas quadras residenciais de Taguatinga.

Assim íamos felizes e silenciosos. Parávamos por instantes para repetir o beijo, em outros lugares, em outras praças. Parávamos para novamente as respirações se encontrarem e, unidas, se imitarem, tímidas. E paramos pela última vez, numa casa grande e rosada de andar, onde entramos.

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Silenciosos, continuamos o beijo, no sofá, na sala, na escada que levava ao quarto. E continuamos ali a dança ritual que une os amantes. Os beijos, antes delicados e ternos se transformaram em fogo e volúpia, em corpos ardentes que se entrelaçavam, cada vez mais unidos, cada vez mais nus. Silenciosos, nos beijávamos e nos entregávamos a uma série de sensações confusas e conturbadas, uma espécie de torpor que antecede uma grande erupção de novas sensações

E essas sensações, no início tímidas e recatadas como os beijos, rapidamente se transformaram e nos dominaram. Não éramos mais dois, um homem e uma mulher, mas éramos um, unidos não só pelo desejo, nem só pelo prazer, mas principalmente pela dança das almas de dois membros da Ordem que se conheciam e no conhecer experimentavam todo um novo mundo de novas cores e possibilidades.

A música delicada dos corpos se transformou numa guerra, numa batalha campal onde dois exércitos se dividiam no controle do território.

Foi quando ela, vencida, através dos seus fortes gemidos, quase gritos, capitulou pela primeira vez, enchendo o quarto, a casa e os lençóis de um tremor tão obsceno e tão delicado, uma dança particular, uma intimidade franca e fraca, um resfolegar breve e obsessivo. E assim ela sorriu.

Eu, ainda não acostumado com essas sensações, nem com os tremores, fechei os olhos e senti no colo, no peito, nos lábios o continuar da dança, da valsa, do tango misturado com o grunge, seco e imperfeito. Eu, um coração desconhecido, sentia o pulsar daquele corpo nu e muito branco que se misturava com meu pulsar e minha pele.

Foi quando tive a grande revelação.

De repente, o pequeno tremor, comum e completamente esperado virou muito mais. Onde havia um corpo nu e branco eu podia sentir a parede, o teto, o piso irregular da rua, o mundo inteiro. O tremor de meu corpo se misturava com a energia oculta de todos os corpos, se misturava com a matéria bruta e a matéria trabalhada, com a vida e a morte.

E aquela sensação, muito maior e muito mais poderosa que qualquer coisa que já tivesse experimentado, cresceu e se expandiu. No princípio, senti um pouco de medo e me vi andando com minha companheira, também amedrontada pela nudez. Caminhamos juntos sentindo, nos comunicando pela telepatia e nos conhecemos muito mais pelas próximas horas.

Então, exaustos descansamos, ainda sentido tudo aquilo que, provavelmente ninguém mais sentira.

Aí nasceu a TRANQUILIDADE...

(continua)


Rabiscado por Poeta Matemático



*Esse layout é uma criação exclusiva de Bruno Maximus*