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1:34 PM

Lembranças de Infância - Parte II


Por causa dos treinamentos da ordem, eu ia para os treinos do judô sempre às terças e quintas e todos os outros dias da semana, sempre pela manhã eu participava de complexos treinamentos com membros da Ordem. Já nessa época eu sentia minha tendinite em ambos os joelhos, mas tinha disciplina e força para continuar o treinamento. As aulas regulares continuavam, à tarde.

Este treino era sempre em lugares diferentes. Consistia de exercícios físicos e técnicas de luta, mas principalmente de considerações de ordem filosófica. A Ordem e seus objetivos, as histórias ligadas a ela e também o caminho filosófico traçado pelos grandes mestres para conseguir o aperfeiçoamento de suas técnicas. A Técnica dos Sete Golpes era uma das mais poderosas e antigas e eu era o único que tinha o honra de aprendê-la, diretamente do Mestre Guerreiro (que eu descobri ser o meu humilde professor de judô). Ainda não tinha compreendido o motivo por eu ter sido o escolhido, já que nunca (nem mesmo nos tempos de treinamento específico da Ordem) me sobressaí entre os meus pares.

Isso ficou bem claro numa quinta-feira, dia 27 de março de 1997 (apenas duas semanas após o início do treino da Ordem). Mais uma vez, durante as lutas, eu vinha sendo massacrado no tatame. A lutador, um garoto chamado Charles com quem eu estava treinando estava lutando comigo, enquanto éramos observados pelos outros alunos. Ele me derrubou facilmente com uma rasteira rápida. Eu levantei e antes de poder me compor, fui novamente derrubado, agora com um tipo de gancho que passa sob as axilas. Porém, no terceiro golpe eu me concentrei.

Vi cada um dos movimentos do Charles. As mãos que se preparavam para a pegada ao mesmo tempo que mantinham a defesa, os movimentos de pernas e, finalmente a abertura que o ataque dele deixou em sua defesa. Por um milésimo de segundo de descuido dele, segurei com força a parte de cima do quimono, e aproveitando sua afobação preparei um golpe muito bem executado e rápido, que o faria cair ruidosamente. Porém, quando já estava executando o golpe, cometi o erro de olhar na direção do meu mestre. Ao seu lado, vi uma jovem, de lindos olhos, que me observava.

Que olhos magníficos e que maneira de olhar! Quem seria aquela jovem? Senti uma grande apreensão naquele momento e me desconcentrei.

Foi quando o Charles me deu um contra-golpe, me derrubou no chão e me estrangulou. Fui vencido mais uma vez.

Depois que ele me soltou, o professor pediu para outra dupla subir ao tatame. Enquanto eu me levantava, procurei insistentemente a garota de belos olhos, mas ela tinha desaparecido.

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Naquele mesmo dia, no colégio, os garotos resolveram me insultar mais uma vez. O principal deles se chamava Ricardo e não era nem forte, nem alto, mas era bastante audacioso. Diziam que ele fazia parte de uma gangue e que já tinha participado de assaltos. Nas duas últimas semanas eles tinham me dado uma trégua, mas naquele dia eles vieram com tudo.

Foi durante o intervalo. Havia acabado de chover e os jardins do colégio tinham se transformado em montes de barro. Aproveitando-se disso, dois deles me seguraram, enquanto o Ricardo pegou um bom monte de lama e se preparou para passar em minha camisa branca do uniforme do colégio.

Ao ver a cena, durante o intervalo, muitos alunos se prepararam para ver o “espetáculo”. Aproveitando a audiência, o Ricardo resolveu usar de toda a sua eloqüência para tornar a humilhação mais terrível:

– Senhoras e senhores, – disse ele em voz alta para todo o colégio. – Estamos aqui com este nosso conhecido Rogêr (ele me chamava assim, de uma maneira bem pejorativa) para lhe dar uma lição. Será que ele sabe qual é o gosto da lama? – E dirigindo-se para a platéia, disse – Será que alguém aqui quer que ele nos diga que gosto tem a lama?

Usando de toda minha força, tentava me desvencilhar dos dois brutamontes que me seguravam, sem sucesso. Ele se aproximou de mim e, com uma mão tentava abrir minha boca, enquanto com a outra carregava um bolo de lama;

– Dessa vez não, desgraçado – disse e aproveitei um descuido dos brutamontes para enlaçar o Ricardo com as pernas. Como ele não estava esperando qualquer reação minha, veio em minha direção e, com a testa, acertei o olho dele, amassando os meus óculos e ferindo-o, sem gravidade.

Os dois que me seguravam, assustados com minha reação me soltaram, deixando eu e o Ricardo cair na lama.

– Seus inúteis! Como vocês deixaram isso acontecer? Estou todo sujo de lama – ao redor, muitos riam, em particular alguns dos que tinham sido humilhados por ele todos esses anos. Com cólera, ele gritou para todos: – Calem-se todos, parem de rir.

– O riso deles te incomoda, Richárd? – disse isso num tom zombeteiro, do mesmo modo que ele dizia meu nome. – E aí, vai nos dizer que gosto a lama tem?

– Seu filho da puta, eu vou te fazer comer essa lama – E partiu pra cima de mim, me ferindo com uma série de socos. Ele estava sentado sobre minha barriga, dificultando minha respiração e eu tentava me defender dos golpes, mas não conseguia. Ele era maior e mais forte do que eu. Foi quando eu resolvi usar um artifício.

– Richárd, viadinho, viadinho, viadinho – E cuspi na cara dele, um cuspe misturado com sangue.

Todos riram dele. Eu tinha ferido seu orgulho. Nesse instante, todos pararam. Foi um silêncio absoluto e descomunal. Ninguém jamais tivera coragem de peitar o Ricardo dessa maneira. Alguns achavam que eu era maluco, outros tinham pena de mim. Ele parou, humilhado, com sua reputação, literalmente, jogada na lama. Aproveitando a interrupção, continuei

– Ah, olha a carinha dele! O viadinho cansou, cansou? – Aquela vozinha manhosa e irritante, junto com o tom zombeteiro fizeram com que ele me olhasse com fúria. Foi quando emendei com o golpe fatal: – Olha, quem fica com raivinha assim tão facinho é porque tem pinto pequenho, viu?

E todo o colégio riu. Foi uma gargalhada descomunal. Talvez a maior gargalhada da história. Alguns riam do ridículo da situação, outros riam por se sentirem vingados. As meninas eram as que riam mais. Elas olhavam para ele, apontando e caíam na risada.

– Ah, é, vou mostrar quem tem pinto pequeno. – E apontando pros comparsas, disse – Vamo tira a roupa desse menino..

– Olha que você pode ter uma surpresa, viu? – Eu disse rapidamente, o que foi seguido de mais uma gargalhada coletiva. – Se você quiser, eu te dou uns cinco centímetros que não me fazem falta. – Pronto, o colégio se desmanchou em gargalhadas.

O Ricardo não sabia o que fazer. A situação tinha saído de controle. Foi quando um dos meus colegas, o Walmir, que também era alvo constante de chacotas por causa do Ricardo, começou o coro:

– RICHÁRD, PINTO PEQUENO!

E todo o colégio o acompanhou. Ricardo nunca imaginou passar por todo esse ridículo. Desesperado, ele se preparou pra um último ato. Ele me ergueu do chão, pela gola da camisa e começou a me esbofetear. Foram um, dois, três, socos. O colégio se calou. Aproveitando o silêncio, eu disse:

– Bate mais forte, viadinho, to cansado de cosquinha!

Pronto, recomeçaram os gritos. E, alguém gritou:

– VIVA ROGER, VIVA ROGER, NOSSO HERÓI, NOSSO HERÓI.

O colégio inteiro gritou o meu nome. Nesse momento, atrasados como sempre, os bedéis chegaram com seus apitos e nos separaram da multidão. Com o rosto sujo de sangue, eu sorria, à vontade.

Os bedéis assustados pediam para multidão se dispersar, mas ninguém parava. Ameaçavam expulsar os alunos, mas eles continuaram. Fui seguido por uma pequena multidão até a direção.

Enquanto a diretora me ouvia, do lado de fora os gritos continuavam. O sinal foi batido mais cedo e os professores pediam aos alunos para voltar para as suas salas. Só depois de alguns minutos os alunos se dispersaram.

– Finalmente, senhor Ricardo. – disse a diretora – Finalmente conseguimos te pegar. E então, gostou da surra que você deu nele? – E, com um sorriso sarcástico, emendou – Tomara que tenha gostado, pois será a última.

Ele chorava, falava inconsistências, mas a diretora estava irredutível. Que papel aquele valentão estava fazendo. Eu me mantive silencioso, impassível. Era provável que eu tivesse o mesmo destino:

– Pois bem, senhores. Depois do que houve aqui hoje, não há mais clima para que continuem assistindo às aulas. Peça a sua mãe que venha aqui, Ricardo, para assinar a sua transferência. E, por favor, pare de chorar. – Depois, dirigindo-se a mim, disse – Quanto a você, Roger, pelo seu comportamento exemplar durante toda a sua vida aqui na escola, e só por isso, abrirei uma exceção e não farei o mesmo com você. Está suspenso pelas próximas duas semanas e continuará fazendo os exercícios e trabalhos em casa durante este tempo. Estão dispensados.

Saí em seguida, mas o Ricardo permaneceu lá, discutindo com a diretora. Ao abrir a porta, me deparei com meu pai, que na época trabalhava na escola. Já imaginava a surra que ia levar.

– Ele merecia isso. Vamos para casa. – Foram as únicas palavras que nós dois tocamos sobre o assunto. De certo modo, vi no olhar machista de meu pai um certo orgulho por ter humilhado o valentão do colégio.

Ao sair, encontrei uma das minhas poucas amigas, Andréia, que me abraçou. Eu tinha até esquecido, no meio de tanta confusão que aquele era o dia de seu aniversário. E, no meio do abraço, ela me sussurrou:

– O aniversário é meu, mas quando você voltar, eu te darei um presente. Temos muito orgulho de você, Roger...

E saí da escola, com meu pai segurando minha mão, pensando em Andréia e na menina de olhos bonitos.

Andréia foi a primeira mulher que tive, duas semanas depois, numa chuvosa tarde de abril, aos doze anos. E a menina de olhos bonitos, essa esteve comigo em muitas histórias. Mas isso é assunto para o próximo post...

Nesse dia eu conheci o significado da palavra Glória e, a partir desse dia, fui conhecido pelo apelido de Herói. E nunca mais pensei em usar a faca de cabo preto...

(Continua...)


Rabiscado por Poeta Matemático



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