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Lembranças de Infância - Parte I
Era um dia de março, do distante ano de 1997, quando eu passava pela pior crise de depressão de minha vida. Não era poeta e nem passava pela minha cabeça ser matemático. Naquele momento, a única coisa importante era a faca de cabo preto que eu segurava em minhas jovens mãos. Eu tinha então doze anos. Naquele momento, não sei com que força, mas sabia exatamente os motivos que me fizeram decidir encerrar minha vida. E, por isso, segurava fortemente a faca de cabo preto com ambas as mãos. A minha solidão e a incompreensão de minha constante tristeza me fizeram tomar aquela nefasta resolução. E, naquele momento eu respirei fundo e olhei para a faca de cabo preto. Não podia errar ou vacilar. Era preciso acertar da primeira vez. E, então, lentamente encaixei a faca entre as costelas, do lado esquerdo do peito, onde eu sentia o coração bater. As mãos jovens e finas tremiam, mas minha mente estava serena. Podia contar cada uma daquelas costelas e, no meu torso nu, as minhas omoplatas se destacavam em meu corpo esquelético e frágil. Sentia um certo prazer e emoção. De certo modo, a solidão me ajudava a sentir cada pedaço do ambiente, a minha casa humilde e sem reboco, no meio de tantas casas humildes e sem reboco de mais um bairro pobre e perigoso do Distrito Federal. E, ali, naquela manhã serena de março, eu ainda ouvia os tiros da noite anterior, os gritos de horror do vizinho, brutalmente executado em frente a minha casa. Ouvia também os roncos de meu tio e sentia o cheiro rançoso de cachaça e suor, que já pareciam fazer parte de sua personalidade. Ainda ouvia as zombarias de meus colegas, os insultos de minha irmã, e no corpo eu carregava as marcas da última agressão: sob as costelas, duas marcas arroxeadas feitas por um cabo de vassoura. Eu era o principal brinquedo dos alunos do colégio. Eles enfiavam minha cabeça na privada, pregavam bilhetes em mim, me chutavam, me xingavam, cuspiam em meu lanche.... E isso já acontecia nos últimos cinco anos. Dos sete aos doze anos eu fui insultado, humilhado, escorraçado, espancado, julgado de todas as formas. Experimentei todos os tipos de humilhação. Tudo por ser inteligente... Não podia ser só inveja ou só vontade de usar alguém como motivo de chacota. Havia algo de demoníaco nas atitudes de alguns deles. Eles sentiam um certo prazer inexplicável em me humilhar. Eu via nos seus olhos o brilho de usufruir do poder de manipular e usar um ser humano como quisesse. E, sem amigos, eu era o alvo mais fácil e certo desse prazer doentio. Por isso eu segurava a faca de cabo preto. E, ali naquele momento sublime, o prazer era meu, o poder era meu, pra dar o fim nesse sofrimento ou para sofrer ainda mais. E eu iria exercer este poder. Foi com essa resolução que eu passei lentamente o fio da faca sobre minha pele branca. Eu queria saborear cada momento. E, uma pequena dor, levemente suportável, uma dor fina e aguda, do meu corpo reagindo ao seu suplício apareceu, doce e saborosa. Logo depois veio o sangue, muito vermelho, primeiro na pele e depois escorrendo num filete rubro e adocicado. Agora faltaria pouco. Foi então que tirei dali a faca de cabo preto e mantive-a a uma boa distância de minhas costelas. Eu estava preparando o golpe fatal que ia me libertar para sempre. E, com um sorriso nos lábios e num movimento rápido me preparei para acertar a faca. Quando o telefone tocou... – Cadê você? Seu professor de judô está te esperando, disse que você não veio. É pra isso que eu pago suas aulas? Pra você ficar vadiando em casa o dia inteiro? Venha pra cá, agora... – Sim pai, estou indo, eu vou pegar o ônibus agora... E, foi aí que chorei pela primeira vez em toda minha vida.
***************************************************************** Era já meio-dia e eu saía da aula de judô, suado e taciturno como sempre. Tinha de correr para voltar para casa a tempo de almoçar e voltar para as aulas à tarde. Foi quando o professor me fez parar. – Não tenha tanta pressa, Roger. Precisamos conversar... – Desculpe sansei, mas eu tenho aula à tarde, preciso correr para almoçar. – Não se preocupe, eu conversei com teu pai. Eu o disse que você almoçaria comigo hoje e que não iria para a aula. Tenho um treinamento especial para você... – Professor, o senhor sabe que não sou um bom judoca. Sempre apanho de todos os adversários. Não há motivo para um treinamento especial. Ele sorriu, olhou para o grande quadro de Jigoro-Kano que havia na parede e me disse: – Você sabe a história do Jigoro-Kano, o inventor do Judô? – Parou brevemente e disse – Era um rapaz franzino e atarracado que foi aprender a milenar arte do Jiu-Jitsu. E, com afinco, logo se tornou um dos melhores mestres de seu tempo. Porém, ele viu que a luta era muito violenta. Muitos lutadores saíam feridos do combate. Então, ele criou uma nova arte marcial, baseada no Jiu-Jitsu, onde os mais fracos poderiam lutar em igualdade com os mais fortes, pelo aperfeiçoamento de seus golpes. Foi aí que nasceu o Judô. – Eu lhe ensinarei uma técnica especial, que é ensinada apenas a grandes lutadores. Com ela você será invencível, mas precisará de sabedoria para usá-la para o bem. Ela se chama A TÉCNICA DOS SETE GOLPES MAGISTRAIS. E, foi assim que eu conheci a ordem, que eu conheci o Mestre da Ordem do Guerreiro e o Anarquista. Porém, nessa época eu ainda era só Roger e é a história deste simples Roger que virou ENNF que irei contar. Mas, antes disso... (Continua)
Rabiscado por Poeta Matemático
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