- Sim, conhecer a academia é importante. Na verdade eu estava com receio de ir lá. Provavelmente eles não sabem o que aconteceu com o mestre. Eles não se sentiram confortáveis com essa troca de mestre.
- Um homem deve seguir o seu destino, Anarquista. Se o mestre o mandou ir lá é porquevocê deve ir. E eu estou curioso para ver as novas instalações. Há oito anos eu não vejo o mestre e desde então eu jamais estive na Academia do Guerreiro. Soube que ela agora fica perto daqui, no andar de um prédio na Asa Norte. Deveríamos ir lá.
- Sim, iremos.
E então começamos a caminhar. Um aluno da UnB deve estar acostumado a andar bastante. Embora eu tenha dito que a academia era perto, eram pelo menos sete quilômetros de distância, um longo caminho para se ir a pé. Não tinha a ilusão de que o Anarquista tivesse carro (em geral os mestres não trabalham) mas fui surpreendido ao segui-lo pelo estacionamento e mais ainda ao ver que ele tinha um Ecosport.
Particularmente, eu preferia ter ido a pé, mas a viagem de carro evitou que nós perdêssemos tempo conversando sobre banalidades desnecessárias. Estávamos correndo um grande perigo por tomar uma decisão tão séria. A morte acompanha de perto aqueles que são contra os desígnios da Ordem.
Durante todo o trajeto não falamos nenhuma palavra. Sabíamos que não seria fácil ser aceitos na academia. Porém, o que mais me preocupava era outra coisa. Aquele jovem mestre carregava um peso grande demais sobre os ombros. Eu tinha dúvidas até que ponto ele estava preparado para resistir em seu caminho.
Também pensava que nossos atos poderiam tanto evitar como fazer cumprir a profecia mais rapidamente. Uma decisão mal tomada nesse momento poderia por em xeque toda o ordem mundial e eu sabia muito bem disso. Será que o Anarquista sabia?
Meus devaneios foram interrompidos com a nossa chegada. Embora fosse cedo, já era difícil encontrar estacionamento naquela quadra comercial e, por isso, tivemos de parar na quadra comercial, distante uns duzentos metros da academia. Depois de fechar o carro, começamos a caminhar, passando por baixo dos prédios da Asa Norte.
Era preciso treinar a intuição nesses últimos segundos e, por isso, me concentrei, sentindo o ambiente. Dessas reflexões, apenas um grande vazio, exceto na direção da academia, de onde vinha uma força muito poderosa.
Finalmente, entramos na quadra comercial, atravessamos a pista e entramos no prédio de dois pavimentos, muito comum nas quadras comerciais de Brasília. Subimos uma escada, decorada com caracateres orientais e que dava numa grande porta de bronze, coberta com metal dourado e prateado. Era o símbolo da Ordem do Guerreiro. Sobre a porta uma placa em que se lia:
PELA GLÓRIA DO GENERAL LEVANTAREMOS OS NOSSOS PUNHAIS
O Anarquista, por me proceder, foi responsável por abrir a porta que dava para um grande espaço vazio, coberto por um grande Tatami coberto por uma lona amarela, onde em torno de 30 pessoas treinavam. Todos pararam, ao nos ver. Eram todos jovens, de 16 a 25 anos, exceto o velho professor, que devia ter seus sessenta.
Me mantive impassível. Minha expressão era séria, mas serena. Olhei ao meu lado, e vi que o Anarquista tremia, com a Espada do Guerreiro na mão. Sorri, brandamente ao ver essa cena, tirei meus sapatos e meias, ajoelhei-me, cumprimentando o professor e subi ao tatame. O Anarquista imitou meus gestos, visivelmente nervoso. Levantei-me e disse com voz forte:
- Venho da parte do Mestre. Trago más notícias - e após uma breve pausa, emendei - ele está morto. Tomo a vossa dor como minha e que nossas condolências sejam vossas. Paz e Bem a todos, em honra e glória à Ordem.
Disse isso e ajeoelhei, cumpriementando o professor mais uma vez. Visivelmente emocionado, o professor disse:
- Como aconteceu tamanha desgraça? Onde está o corpo de mestre para que possamos chorar e prestar nossas homenagens?
- Tudo a seu tempo - respondi com voz grave, ainda ajoelhado. Logo após, emendei serenamente- Existem assuntos mais urgentes a tratar- apontando paa o anarquista, disse - Este é o Guerreiro Anarquista, aquele que foi escolhido pelo mestre para sucedê-lo. A ele deveis prestar honras e agradecimentos.
Houveram risos debochados em toda a sala. Eu mesmo sorri do ridículo daquela situação. Um dos alunos não se conteve e disse:
- O mestre jamais escolheria um garoto franzino pra sucedê-lo. Que tipo de mestre esse garoto poderia ser? Talvez mestre dum circo de pulgas. - A essa declaração foram seguidos muitos risos e deboches. O Anarquita, ao meu lado estava irritadíssimo, à beira da cólera, enquanto eu e o professor mantínhamos a serenidade. Este era um momento capital do qual dependiam todos os nossos planos. Ruidosamente, me levantei e me despi, pegando um dos kimonos brancos que haviam no armário, seguido pelo Anarquista.
- Ainda tem a insolência de vestir as nossas roupas? Querem nos matar de rir?
O Anarquista terminou de se vestir, amarrando a faixa preta quando disse, pondo-se em posição de luta:
- Quem fala muito, faz pouco...
Apenas o silêncio. Eu e o professor nos olhávamos. Neste momento, quatro dos alunos vieram em toda força para nos atavar. Me mantive impassível, enquanto o Anarquista se preparou para atacá-los. Quando estavam prestes a se enfrentar, o professor disse, numa voz tão forte quanto a minha:
- Se quiserem lutar contra entre si, que lutem, mas não ousem encostar um dedo no ENNF - disse isso e apontou pra mim. Meu segredo estava perdido, agora toos sabiam quem eu era. Apesar da gravidade da situação, continuei tranqüilo, esperando o desenrolar dos acontecimentos. A sala foi tomada de espanto. Nenhum deles (exceto o professor) jamais tinha visto um ENNF. Os alunos retrocederam, junto do Anarquista, que também estava surpreso. Foi quando a porta foi ruidosamente aberta e de lá saiu um homem, com seus quarenta anos, trajando um kimono negro e uma faixa grossa vermelha. Era o assistente do mestre. Se chamava Joshua e era judeu. Tinha olhos azuis penetrantes e a cabeça completamente calva. Depois de tirar a parte de cima do kimono, disse ruidosamente.
- Não encostaremos no ENNF, mas se este diz ser o sucessor de nosso mestre, que prove. Lutem entre si e veremos se mentem.
Olhei para o Anarquista para sentir seu espanto. Aquele seria um momento interessante. Os quatro alunos que o cercavam começaram a atacar. O Anarqusita desviou de todos os golpes e, com apenas quatro, derrubou todos eles. Os alunos se levantaram rapidamente, sendo novamente derrubados um a um.
Mais alunos se juntaram aos primeiros e, em alguns segundos, não era mais possível saber quantos deles estavam cercando o Anarquista. Ele derrubava todos um a um, golpe atrás de golpe. Essa luta durou alguns minutos, depois dos quais o Assistente do Mestre disse:
- Deixemos de lado essa estupidez. Lute comigo Anarquista, e veremos se você é o sucessor do mestre.
(Continua)