Eu o vi sair e fiquei alguns segundos ali, ainda sentado na cadeira. Alguns ainda me olhavam, outros não ligavam muito. Depois disso, levantei e saí. Eu precisava espairecer um pouco. Aquele dia tinha começado mal e estava piorando rapidamente.
Após sair da biblioteca, comecei a andar pelos jardins da universidade. Andei em direção à reitoria, logo após em direção ao Lago Paranoá. Eu jamais fico com raiva por mais de cinco minutos e após as palavras do Anarquista me entreguei a uma reflexão profunda. Não era fácil estar na posição dele. Ele seria pressionado pela Ordem do Dragão em breve para ir ao Haiti. A situação estava muito feia.
O Anarquista estava entre a cruz e a espada e precisava de ajuda. A tal da biografia era só um pretexto para me pedir um pouco de apoio. Poucos se voltam contra a Ordem do Dragão e ele provavelmente se voltaria. Ele sabia que eu tinha me voltado e sobrevivido. O problema era saber o quanto dessa história ele sabia.
O pior foi lembrar de P. e de meu antigo papel na Ordem. Já havia cinco anos que eu não me aprofundava nos conhecimentos da ordem, por opção. A Ordem do Dragão quase me matou. E agora, eu sabia, era preciso recorrer mais uma vez à Tranqüilidade...
Eu estava agora às margens do Lago Paranoá. Muitas lembranças da Ordem remetiam àquele lago e era lá que eu estava mais uma vez.
Ali, próximo à margem havia uma velha e torta goiabeira. Sentei ali, fechei meus olhos e inspirei tranquilamente o ar da manhã, que estava se aquecendo rapidamente. Ouvi o ruído leve do ressonar do lago, como uma respiração fraca e inconstante. Ouvi, ao longe o barulho de um barco, vozes e carros.
Era preciso descansar meu espírito mais uma vez, para aprofundar o discernimento. Ali, sentado abaixo de uma goiabeira eu me ajoelhei, fechei os olhos, uni as mãos e deixei a minha intuição agir. Com os olhos fechados eu me levantei e andei. Pequenos passos, a princípio, depois grandes passos apressados. Logo logo eu corria, com os olhos fechados, sem saber para onde ia. De repente parei.
Respirei forte por alguns segundos e então abri os olhos. Era uma cerca, bem à minha frente. Eu tinha me afastado bastante do lago e a cerca separava a área preservada em volta do lago da pista. Eu tinha corrido por mais de seiscentos metros de cerrado, com os olhos fechados, sem tropeçar ou bater em nenhum galho e minha intuição tinha me guiado até ali. Fechei os olhos mais uma vez e tentei sentir o ambiente. Eu vi, com os olhos fechados, as árvores, senti os pensamentos das pessoas, senti o chão e as energias que quase ninguém vê.
Usei meus braços como radares. O que eu precisava fazer era muito importante e inadiável. Em um lugar propício, fiz um círculo com o pé, no chão, limpei das folhas e me sentei, tudo com os olhos fechados. Comecei a fazer uma antiga e poderosa dança com os braços. Era preciso falar com P. a qualquer custo e aquele era o momento.
Rodei em várias direções, sempre sentido as energias das pessoas conhecidas. Era muito difícil achar a energia de uma pessoa em particular entre seis bilhões de pessoas. Minha sorte era que a energia de P. era muito poderosa e especial. Poderia sentí-la de qualquer parte do mundo, mas havia cinco anos que não fazia isso.
De repente, parei. Era ela. Onde ela estaria?
Eu a vi, no meio de muitas pessoas de uma cidade muito movimentada. Era a Alemanha, tinha certeza pelos sotaques que tinham. Eu vi que ela me sentia. Ela parou. no meio da rua movimentada. Eu ouvi as buzinas dos carros e a vi quando, quase sendo atropelada, ela parou um carro com a mão. Era P. e estava muito mais poderosa.
Foi quando ouvi um sussuro leve: Ainda não, ela te espera.
Senti o celular tocar. Um sorriso tomou conta de meus lábios. Era a punk que me ligava.
- Onde vc está?
- Estou num bar prómíscuo bebendo cerveja.
- Amor, vc tem dois defeitos muito graves: Vc não bebe cerveja e não sabe mentir...
- Certo, mas a história é comprida e não tô nem um puco a fim de contar agora. A aula acabou?
- Sim, faz tempo. Por isso eu tô te ligando e pq eu tava a fim de fazer uma coisa...
- E vc está a fim de q?
- Vc sabe...
- Então me encontre naquele lugar...
- Em vinte minutos...
Desliguei o telefone
Era estranho, mas mesmo sem ter falado com ela eu sabia exatamente o que tinha de fazer. E faria depois de cumprir minhas obrigações. Sem falar que já tava de saco cheio daquela universidade. Levantei e fui...
(Continua...)