html>
Perfil

Nome: Fulano
Idade: 25
Signo: Aquário
Cor: Preta
Coisas que adoro: Rock, dormir, sexo, amigos, tattoos, cinema, cerveja
Coisas que odeio: inveja, ciúme, falsidade, verduras, suco de tomate

Blogs Amigos

Blog Do Bruno!

Links

! ! ]¦Y¦[åx¡Mµ§ ! !

Arquivo

Layout Por



11:58 AM

O Rei Está Morto!
Viva o Rei!!!!

O Mestre Dragão foi assassinado ontem, por desconhecidos. Este pode ser o início da profecia. Que Deus ajude todos nós...

ENNF


Rabiscado por Poeta Matemático

9:22 AM

Caros,

Tô muito sem tempo pra postar aqui. Espero que vcs me desculpem. Voltarei à carga em breve.

Abraços


Rabiscado por Poeta Matemático

3:41 PM



Voltei para casa um pouco transtornado. Não sei se estava preparado para aquele turbilhão de sensações daquela tarde de 27 de março. A Ordem, as visões, o reencontro com Patrícia e tudo aquilo tinham me deixado exaurido. Além disso, depois daquela experiência, pareceu que um novo sentido se desenvolveu em mim. A intuição estava à flor da pele. Conseguia sentir o que as pessoas sentiam e, a cada momento era sacudido por calafrios. Meus olhos mostravam muito mais do que eu conseguia enxergar, minhas mãos tocavam muito mais do que podiam sentir. Tudo aquilo me deixava extasiado, eufórico, levemente sacudido por aquelas coisas.

Chegando em casa, fui direto para a cama mas não consegui dormir naquele dia. O sábado mormacento e os sons dos vizinhos me irritavam e me faziam sacudir na cama. Os temores, os amores, os sentimentos vis e mesquinhos pareciam se catalisar em mim. Era tudo tão estranho e diferente e ao mesmo tempo contemplativo. Era como se eu aprendesse a andar pela primeira vez.

Transtornado com essas coisas, já em alta madrugada, Patrícia me procurou em meus delírios:

– Que ouve contigo? Porquê ainda não dormiu?

– Você não está sentindo essas coisas também?

– Sim, eu sinto, mas posso sentir muitas coisas mais, como você sabe.

E, experimentei uma outra nova sensação. Era o contato da pele, dos lábios, os cheiros familiares. Fechei os olhos e estava com ela, mais uma vez. Não sabia onde exatamente, mas podia ver um grande campo aberto, e uma árvore solitária no meio do vazio. Ao lado desta árvore, uma modesta cabana.

Ela me tomou pela mão, me beijou e me conduziu para aquele lugar. Entramos juntos, triunfantes, eu com ela nos braços. A pus sobre a mesa da cozinha e ali nos amamos, por toda a noite.

*******************************************************

Essas experiências eram complicadas. Queria conhecer o significado de todas as palavras para poder explicar o que eu senti naqueles dias. No ano de 1999, enquanto o mundo era sacudido por notícias terríveis e vivíamos com medo do perigo de sermos descobertos pela Ordem, aprendemos diversas técnicas de telepatia, de conhecimento da realidade universal, filosofia e aprimorávamos técnicas de luta. Embora dois elementos distintos, eu e Patrícia nos completávamos, num tipo particular de encanto, uma magia meio .

Não éramos namorados. Sabíamos que não poderíamos dar nos o luxo de amar ou nos apaixonar por ninguém. A partir do momento que nos entregamos à luxúria, no dia 27 de março, estávamos condenados. Por isso mesmo, não vivíamos uma boa vida.

Eu, embora sem passar por nenhuma crise depressiva há vários meses, fazia coisas que poderiam ter me matado. Participava de shows de rock pesado, me envolvia em brigas com skinheads, em mega-manifestações. Nesse ano o movimento anti-FHC e ante-Neoliberalismo estava próximo do seu auge, sofrendo declínio depois dos atentados de 11 de setembro. Nunca fui um adepto da violência, mas naqueles dias de 1999 eu tinha fúria de sangue.

Meus pais, alarmados pelos meus professores, me puseram para estagiar numa repartição pública, lá pelo mês de julho. E esse foi o início de um novo e interessante período de minha vida.

Na Tranqüilidade o sexo é um dos caminhos para a busca do auto-aperfeiçoamento. Foi com esse intuito que me entreguei a uma sanha luxuriosa que eu só repetiria anos depois, já na faculdade. Estive com várias mulheres, de várias idades. Sempre fiz questão de não me relacionar amorosamente com elas. E sempre deixei isso claro.

No princípio achei isso muito interessante. Lembrem-se que eu era apenas um garoto de 14/15 anos no ano de 1999. Não era fácil para alguém da minha idade ter muitos relacionamentos, ainda mais quando eu não era atraente. Mesmo assim, as técnicas da Tranqüilidade me fizeram ter um sucesso relativo. Esse sucesso era partilhado por Patrícia. Quando eu estava com outra mulher, quase sempre a sentia comigo.

Primeiro era apenas como se ela visse a cena. Sentia seu cheiro, seu toque delicado. Depois ela passou a participar ativamente dessas experiências (embora não fisicamente). Aquilo me deixava louco e excitado. Já as mulheres com quem estive, muitas não compreendiam o que acontecia, mas nunca vi nenhuma reclamação.

************************************************

E o ano de 1999 acabou, deixando muitas lembranças. Porém, nossa intuição dizia que o ano 2000 não seria tão fácil como este para nós. Muito menos para a Ordem...



Rabiscado por Poeta Matemático

3:44 PM

Lembranças de um mestrando – Parte II

O fim da tarde caía sobre os telhados de Taguatinga. Eu e ela descansávamos abraçados e silenciosos. A nudez não era incômodo, éramos dois amantes que se entrelaçavam. Na janela, um batalhão de cores, vermelho, rosa, púrpura, invadia o quarto, fazendo figuras nas paredes.

Novamente olhei para aqueles belos olhos. Até hoje não sei de que cor eram, se eram cinzentos, negros ou castanhos. Acho que eram cinzentos.

Estranho, uma sensação completa de relaxamento, uma compreensão profunda do ser do outro. Bem, eu ainda não compreendia essas coisas. Precisaria de muitos meses de treinamento para entender que aquela tinha sido uma das mais poderosas e simples técnicas da Ordem. Entretanto, me perdia naquele par de olhos.

Foi então que percebi que aquele abraço era absurdo. Na verdade, toda aquela situação era absurda. Sem conseguir me conter, perguntei:

– Bem, acho que não fomos apresentados. Meu nome é...

– Eu sei quem você é, Roger. – ela me interrompeu, completando em seguida – Ou será que eu devia lhe chamar de Herói?

Mais uma vez o meu sorriso sarcástico. Ainda nua, ela levantou da cama, se espreguiçou e vestiu com um robe. Andou pelo quarto e parou a observar a tarde pela janela.

– Ora, – disse eu – assim eu fico em desvantagem, não é? Acho que mereço saber ao menos o nome da dama de belos olhos.

– Você sabe, não sabe, Roger? Pense um pouco que você terá a resposta.

Hum, como eu saberia seu nome? O que esta pessoa queria me dizer? Deixei a intuição me guiar.

– Bem, Patrícia, é esse o seu nome, não? – ela confirmou com a cabeça. Eu ainda não tinha entendido como tinha adivinhado, mas continuei – Diga-me, porquê?

– Porque assim estava escrito, Herói.

– Se assim está escrito, porque devemos encenar?

– Para que tudo se cumpra conforme foi dito pelos nossos antecessores. – Mais uma vez meu sorriso, quando aqueles olhos me observaram.

Acredito que vocês não entenderam muito desse pequeno diálogo. Na verdade, eu e Patrícia tínhamos um relacionamento bastante lacônico e conversávamos mais por metáforas. De certo modo, um sempre sabia o que o outro estava pensando.

Levantei e a beijei profundamente. A excitação crescia enquanto nos olhávamos nos olhos. Eu disse:

– Que Ordem?

– Dragão.

– É proibido, não é? Somos dois mestrandos de ordens diferentes. Isso pode ser perigoso.

– E daí? Se está escrito, está escrito.

– Você segue ordens de algum superior?

– Você sabe que não.

– Então, porque me escolheste?

Como resposta, ela me beijou demoradamente, me jogando sobre a cama. Após a queda do robe, vi seus pequenos seios e a barriga macia e sensual. Pensei em beijá-la no pescoço, quando veio um novo estremecimento. E uma nova revelação.

*************************************************

O quarto desapareceu e foi substituído por uma visão conturbada. Eram muitos soldados que se batiam numa batalha feroz. De um lado, um exército regular, com tanques, metralhadoras e fuzis. Do outro, cidadãos com armas improvisadas, pedras, paus. Muitos mortos nas ruas, as moscas pousavam no chão, imundo de sangue e nos corpos em decomposição.

E eis que do meio dos populares surgem cinco vestidos em armaduras. Eles levantam cinco espadas e correm na direção do exército regular. E, no trote, sendo alvejados por balas, gritam desencontrados. De repente, soltam grandes golpes poderosos e avançam sobre os militares.

O primeiro causa um tipo de terremoto, rachando o chão e assustando os soldados. O segundo causa um grande vendaval, varrendo soldados em todas as direções. O terceiro, causa um dilúvio e, com seus raios fulmina dezenas de soldados. O quarto, com a força de vários homens joga os tanques sobre os soldados, matando vários. O quinto e últimos dispara poderosos raios de fogo, destruindo os adversários

E, os populares avançam, gritando palavras de ordem para os soldados. Estes, correm assustados, muitos se rendem. Porém, do oeste surge um grande dragão alado, de cinco cabeças. De cada uma das cabeças sai o poder de cada soldado desconhecido.

Acuados, eles se rendem, correndo. O povo então começa a adorar o dragão, rendendo-lhe homenagens. Porém, do meio da multidão surge um jovem sem armadura e sem poderes. Ele carrega uma vara de bambu na mão e investe contra o dragão, sendo repelido pela multidão enlouquecida.

Ele, sendo linchado pela multidão tem força suficiente para lançar a pequena vara contra o dragão, acertando-o em um dos olhos. E, o dragão, assustado, contorce-se de dor. Do meio da dor, é ouvido um choro angustiado. O dragão era apenas um bebê humano, com sorriso satânico e olhar infantil.

A multidão tenta agradecer ao jovem pela revelação, mas percebe que ele está morto. E, todos choram convulsivamente.

****************************************

Levanto-me assustado. Meu peito está melado de suor. Olho nos olhos da Patrícia e vejo eu ela também chorava. Compreendi tudo.

Dei-lhe um último beijo, me vesti e saí, sem despedidas. Era já escuro quando consegui pegar o ônibus que me levaria para casa.

(Continua)


Rabiscado por Poeta Matemático

7:33 PM

Parte I

Era o mês de março do ano de 1999. Mais precisamente, era dia 27 e eu andava pelas ruas tumultuadas e cheias de gente do centro de Taguatinga. E, desde os últimos acontecimentos aqui narrados, se passaram dois anos intensos.

Havia saído da Ordem do Guerreiro em um momento meio obscuro, mas isso vai ficar claro mais pra frente. Na verdade, desde que tive minha briga com o Ricardo, eu mudara bastante. Mais alto, minha magreza proeminente demais, o gogó saliente demais, os ombros ossudos demais...

O traço mais marcante deste novo Roger era o sorriso um pouco sarcástico, petulante e um tantinho quanto satânico, às vezes. Eu vivia tempos difíceis, mas aquela foi, sem dúvida, uma das épocas mais felizes de minha vida. Novos óculos, mais finos, uma barbicha, na verdade no máximo uma penugenzinha, as calças jeans justas demais, deixando entrever as nádegas volumosas e as coxas desproporcionalmente grossas. Nessa época aprendi a tocar violão, a olhar as pessoas de cima e que as mulheres gostam mais de você quanto mais diferente do habitual você é.

E, nesses tempos tempestuosos, eu era um contra-exemplo fenomenal. Meus amigos se matavam de estudar nas matérias, enquanto eu lia Maquiavel, Fernando Sabino, Castro Alves, Sidnei Sheldon, Irving Wallace, Hemingway e tantos outros. Eu me orgulhava de jamais perder tempo com aquela mediocridade que os professores chamavam de ensino. Por isso, tornei-me um pouco sádico em minhas colocações.

Não perdia uma oportunidade de colocar meus professores em condição constrangedora, humilhante. Muitas vezes, sabia de antemão a resposta das perguntas e, por isso as emendava com outras perguntas. Alguns deles se irritavam, outros saíam de sala. Teve uma, de Química que até saiu do colégio. E, sempre via nessas minhas pequenas atitudes algumas vitórias.

Por esse tempo, comecei a mexer com o movimento estudantil. Nunca me apaixonei por UNE, UBES, UJS ou qualquer dessas entidadezinhas medíocres. Eu ia lá só pela ação e o ano de 1999, particularmente, foi bem agitado. Greves, manifestações pela defesa da educação, pancadarias com a polícia: eu estava em todas. Minha época de punk era a época da contestação com a polícia, de sair batendo de frente nos escudos, de jogar pedras e pedaços de pau, de sentir o cheiro do gás lacrimogêneo. Eu achava magnífico, na mediocridade habitual, minhas pequenas batalhas com a polícia eram o auge. Fui até pra delegacia uma vez, num desses momentos de fúria.

Nos momentos mais fortes, eu e outros alunos, na maioria vindos do Grêmio Estudantil, invadíamos as salas durante as aulas e decretávamos paralisações dos alunos. Nos sentávamos em frente a direção e exigíamos o direito de sair para fechar o trânsito. Quando não éramos atendidos era divertido. Abaixávamos nossas calças na frente do diretor, abríamos o portão na marra...

Na verdade, hoje olho essas pequenas coisas com outros olhos. Era uma infantilidade muito grande achar que isso era contestação verdadeira. Pra mim, era uma maneira de liberar hormônios em ebulição, mas eu não sabia disso ainda. Apesar das lembranças deste tempo, acredito que tive sorte de sair ileso e com a ficha limpa na polícia depois desses anos de secundarista. Ah, não disse ainda, mas contava nessa época 14 anos, estava nos primeiros dias do segundo ano do segundo grau e, como acho que vocês devem ter percebido, eu era um jovem um tanto quanto precoce.

****************************************************************

Pois bem, nesse dia 27 de março, eu andava pelas ruas da Praça do Relógio, no Centro da cidade satélite de Taguatinga. Meu colégio fazia fronteira com essa importante praça e ficava num dos lugares mais pitorescos e movimentados do Distrito Federal. O centro de Taguatinga é conhecido pelo comércio. Lá existem duas feiras, vários supermercados, lanchonetes, bares e, como não poderia deixar de ser, puteiros.

E havia várias ruas onde as prostitutas ofereciam seus serviços. A rua mais próxima era a das mais velhas, decadentes. A rua de cima era domínio exclusivo dos travestis e congêneres. Já a outra, que tinha hotéis melhores, era a das meninas mais jovens, com mais corpo e mais caras. Claro, nunca me interessei e deitar com prostitutas, mas eu gostava muito de conversar com elas. As putas mais velhas tinham muitas histórias engraçadas, de mulheres entaladas, de deputados bêbados, de noites de orgias sem fim. O mais engraçado era como todas as pessoas passavam desviando daquelas senhoras e eu, pra contestar, fazia questão de cumprimentá-las, saber como ia o dia e como tinha sido a noite.

Havia também os mendigos e estes eram muitos. Havia os feirantes, os comerciários, os boticários, os dentistas e as Casas Bahia. Havia o fórum, a Administração Regional, as casas de show, outras praças próximas onde se tocava violão e bebia-se o bom vinho Canção branco suave. No meio desta multidão de pequenos seres apaixonantes, batedores de carteira, travestis, cafetinas, outros malfeitores e, é claro, transeuntes normais que eram a maioria que se perdia na multidão, eu andava.

Nesta tarde, um pouco nublada, eu estava vestido com minha indumentária básica: jeans, camiseta branca do colégio, camisa de flanela (nessa época eu ouvia muito Nirvana e outras bandinhas de grunge) e tênis, além da inseparável mochila e andava absorto pelas ruas, sentindo uma torrente de sensações. Ah, como eu gostava daquela multidão nauseabunda! Como eu gostava das cusparadas dos velhos, da pressa das senhoras, das bundas arredondadas e dos peitinhos periformes das mocinhas dos colégios próximos! E como eu me encantava com aquela dança surda e habitual, com as pessoas e seus rituais cotidianos, a indiferença daquela multidão de pessoas absolutamente iguais, egoístas e suas vidinhas mais ou menos! Como eu me achava superior a elas...

E como eu estava errado...

Porém, minha contemplação habitual, muito influenciada pelos ensinamentos da Ordem, foi interrompida por um estremecimento fora do comum. Todos os meus pêlos se eriçaram e, após alguns passos, parei, com os olhos bem abertos e a respiração irregular. O que tinha sido aquilo? Que sensação absurda de quase morte era aquela?

Preparei minha intuição. Era preciso concentrar todo o corpo para compreender o que tinha se passado. Assim percebi que o motivo do estremecimento estava ali, nas minhas costas, a alguns passos. Lentamente, com os arrepios ainda mais fortes, me virei na direção em que a intuição me apontava e vi uma jovem de seus dezesseis anos que também estava parada e virada em minha direção. E reconheci aqueles olhos.

De repente, o resto da praça pareceu parar. Não percebi as pessoas que iam e vinham, o barulho dos carros, a ciranda cotidiana. Éramos ela, eu e o vento que soprava, levantando minha sobre-camisa e os cabelos negros e compridos da jovem de bonitos olhos. Era uma comunicação espetacular. Éramos íntimos seres que só tinham se visto uma vez. Agora tudo estava claro, ela também era da Ordem.

Olhando-a, senti segundos de indecisão. Era aquele silêncio constrangedor de duas almas que se conhecem naquele segundo.

Então, uma resolução forte toma conta de meu corpo e do dela e caminhamos para nos encontrarmos. Nos meus lábios, meu marcante sorriso, um pouco sarcástico e petulante. Paramos, em frente um ao outro, tão próximos que podíamos sentir o cheiro, ouvir o som da respiração e imaginar no peito o coração descompassado. E, tão forte como o primeiro olhar, os olhos se fecharam num beijo estelar.

Eis o amor à segunda vista...

******************************************************

E o beijo durou, quase eterno. Eram apenas lábios, depois mãos e depois almas que se entrelaçavam. Sem nos falar, sem perda de tempo, ela me pegou pela mão e me levou com ela pelas quadras residenciais de Taguatinga.

Assim íamos felizes e silenciosos. Parávamos por instantes para repetir o beijo, em outros lugares, em outras praças. Parávamos para novamente as respirações se encontrarem e, unidas, se imitarem, tímidas. E paramos pela última vez, numa casa grande e rosada de andar, onde entramos.

**************************************************************

Silenciosos, continuamos o beijo, no sofá, na sala, na escada que levava ao quarto. E continuamos ali a dança ritual que une os amantes. Os beijos, antes delicados e ternos se transformaram em fogo e volúpia, em corpos ardentes que se entrelaçavam, cada vez mais unidos, cada vez mais nus. Silenciosos, nos beijávamos e nos entregávamos a uma série de sensações confusas e conturbadas, uma espécie de torpor que antecede uma grande erupção de novas sensações

E essas sensações, no início tímidas e recatadas como os beijos, rapidamente se transformaram e nos dominaram. Não éramos mais dois, um homem e uma mulher, mas éramos um, unidos não só pelo desejo, nem só pelo prazer, mas principalmente pela dança das almas de dois membros da Ordem que se conheciam e no conhecer experimentavam todo um novo mundo de novas cores e possibilidades.

A música delicada dos corpos se transformou numa guerra, numa batalha campal onde dois exércitos se dividiam no controle do território.

Foi quando ela, vencida, através dos seus fortes gemidos, quase gritos, capitulou pela primeira vez, enchendo o quarto, a casa e os lençóis de um tremor tão obsceno e tão delicado, uma dança particular, uma intimidade franca e fraca, um resfolegar breve e obsessivo. E assim ela sorriu.

Eu, ainda não acostumado com essas sensações, nem com os tremores, fechei os olhos e senti no colo, no peito, nos lábios o continuar da dança, da valsa, do tango misturado com o grunge, seco e imperfeito. Eu, um coração desconhecido, sentia o pulsar daquele corpo nu e muito branco que se misturava com meu pulsar e minha pele.

Foi quando tive a grande revelação.

De repente, o pequeno tremor, comum e completamente esperado virou muito mais. Onde havia um corpo nu e branco eu podia sentir a parede, o teto, o piso irregular da rua, o mundo inteiro. O tremor de meu corpo se misturava com a energia oculta de todos os corpos, se misturava com a matéria bruta e a matéria trabalhada, com a vida e a morte.

E aquela sensação, muito maior e muito mais poderosa que qualquer coisa que já tivesse experimentado, cresceu e se expandiu. No princípio, senti um pouco de medo e me vi andando com minha companheira, também amedrontada pela nudez. Caminhamos juntos sentindo, nos comunicando pela telepatia e nos conhecemos muito mais pelas próximas horas.

Então, exaustos descansamos, ainda sentido tudo aquilo que, provavelmente ninguém mais sentira.

Aí nasceu a TRANQUILIDADE...

(continua)


Rabiscado por Poeta Matemático

1:34 PM

Lembranças de Infância - Parte II


Por causa dos treinamentos da ordem, eu ia para os treinos do judô sempre às terças e quintas e todos os outros dias da semana, sempre pela manhã eu participava de complexos treinamentos com membros da Ordem. Já nessa época eu sentia minha tendinite em ambos os joelhos, mas tinha disciplina e força para continuar o treinamento. As aulas regulares continuavam, à tarde.

Este treino era sempre em lugares diferentes. Consistia de exercícios físicos e técnicas de luta, mas principalmente de considerações de ordem filosófica. A Ordem e seus objetivos, as histórias ligadas a ela e também o caminho filosófico traçado pelos grandes mestres para conseguir o aperfeiçoamento de suas técnicas. A Técnica dos Sete Golpes era uma das mais poderosas e antigas e eu era o único que tinha o honra de aprendê-la, diretamente do Mestre Guerreiro (que eu descobri ser o meu humilde professor de judô). Ainda não tinha compreendido o motivo por eu ter sido o escolhido, já que nunca (nem mesmo nos tempos de treinamento específico da Ordem) me sobressaí entre os meus pares.

Isso ficou bem claro numa quinta-feira, dia 27 de março de 1997 (apenas duas semanas após o início do treino da Ordem). Mais uma vez, durante as lutas, eu vinha sendo massacrado no tatame. A lutador, um garoto chamado Charles com quem eu estava treinando estava lutando comigo, enquanto éramos observados pelos outros alunos. Ele me derrubou facilmente com uma rasteira rápida. Eu levantei e antes de poder me compor, fui novamente derrubado, agora com um tipo de gancho que passa sob as axilas. Porém, no terceiro golpe eu me concentrei.

Vi cada um dos movimentos do Charles. As mãos que se preparavam para a pegada ao mesmo tempo que mantinham a defesa, os movimentos de pernas e, finalmente a abertura que o ataque dele deixou em sua defesa. Por um milésimo de segundo de descuido dele, segurei com força a parte de cima do quimono, e aproveitando sua afobação preparei um golpe muito bem executado e rápido, que o faria cair ruidosamente. Porém, quando já estava executando o golpe, cometi o erro de olhar na direção do meu mestre. Ao seu lado, vi uma jovem, de lindos olhos, que me observava.

Que olhos magníficos e que maneira de olhar! Quem seria aquela jovem? Senti uma grande apreensão naquele momento e me desconcentrei.

Foi quando o Charles me deu um contra-golpe, me derrubou no chão e me estrangulou. Fui vencido mais uma vez.

Depois que ele me soltou, o professor pediu para outra dupla subir ao tatame. Enquanto eu me levantava, procurei insistentemente a garota de belos olhos, mas ela tinha desaparecido.

*********************************************************************

Naquele mesmo dia, no colégio, os garotos resolveram me insultar mais uma vez. O principal deles se chamava Ricardo e não era nem forte, nem alto, mas era bastante audacioso. Diziam que ele fazia parte de uma gangue e que já tinha participado de assaltos. Nas duas últimas semanas eles tinham me dado uma trégua, mas naquele dia eles vieram com tudo.

Foi durante o intervalo. Havia acabado de chover e os jardins do colégio tinham se transformado em montes de barro. Aproveitando-se disso, dois deles me seguraram, enquanto o Ricardo pegou um bom monte de lama e se preparou para passar em minha camisa branca do uniforme do colégio.

Ao ver a cena, durante o intervalo, muitos alunos se prepararam para ver o “espetáculo”. Aproveitando a audiência, o Ricardo resolveu usar de toda a sua eloqüência para tornar a humilhação mais terrível:

– Senhoras e senhores, – disse ele em voz alta para todo o colégio. – Estamos aqui com este nosso conhecido Rogêr (ele me chamava assim, de uma maneira bem pejorativa) para lhe dar uma lição. Será que ele sabe qual é o gosto da lama? – E dirigindo-se para a platéia, disse – Será que alguém aqui quer que ele nos diga que gosto tem a lama?

Usando de toda minha força, tentava me desvencilhar dos dois brutamontes que me seguravam, sem sucesso. Ele se aproximou de mim e, com uma mão tentava abrir minha boca, enquanto com a outra carregava um bolo de lama;

– Dessa vez não, desgraçado – disse e aproveitei um descuido dos brutamontes para enlaçar o Ricardo com as pernas. Como ele não estava esperando qualquer reação minha, veio em minha direção e, com a testa, acertei o olho dele, amassando os meus óculos e ferindo-o, sem gravidade.

Os dois que me seguravam, assustados com minha reação me soltaram, deixando eu e o Ricardo cair na lama.

– Seus inúteis! Como vocês deixaram isso acontecer? Estou todo sujo de lama – ao redor, muitos riam, em particular alguns dos que tinham sido humilhados por ele todos esses anos. Com cólera, ele gritou para todos: – Calem-se todos, parem de rir.

– O riso deles te incomoda, Richárd? – disse isso num tom zombeteiro, do mesmo modo que ele dizia meu nome. – E aí, vai nos dizer que gosto a lama tem?

– Seu filho da puta, eu vou te fazer comer essa lama – E partiu pra cima de mim, me ferindo com uma série de socos. Ele estava sentado sobre minha barriga, dificultando minha respiração e eu tentava me defender dos golpes, mas não conseguia. Ele era maior e mais forte do que eu. Foi quando eu resolvi usar um artifício.

– Richárd, viadinho, viadinho, viadinho – E cuspi na cara dele, um cuspe misturado com sangue.

Todos riram dele. Eu tinha ferido seu orgulho. Nesse instante, todos pararam. Foi um silêncio absoluto e descomunal. Ninguém jamais tivera coragem de peitar o Ricardo dessa maneira. Alguns achavam que eu era maluco, outros tinham pena de mim. Ele parou, humilhado, com sua reputação, literalmente, jogada na lama. Aproveitando a interrupção, continuei

– Ah, olha a carinha dele! O viadinho cansou, cansou? – Aquela vozinha manhosa e irritante, junto com o tom zombeteiro fizeram com que ele me olhasse com fúria. Foi quando emendei com o golpe fatal: – Olha, quem fica com raivinha assim tão facinho é porque tem pinto pequenho, viu?

E todo o colégio riu. Foi uma gargalhada descomunal. Talvez a maior gargalhada da história. Alguns riam do ridículo da situação, outros riam por se sentirem vingados. As meninas eram as que riam mais. Elas olhavam para ele, apontando e caíam na risada.

– Ah, é, vou mostrar quem tem pinto pequeno. – E apontando pros comparsas, disse – Vamo tira a roupa desse menino..

– Olha que você pode ter uma surpresa, viu? – Eu disse rapidamente, o que foi seguido de mais uma gargalhada coletiva. – Se você quiser, eu te dou uns cinco centímetros que não me fazem falta. – Pronto, o colégio se desmanchou em gargalhadas.

O Ricardo não sabia o que fazer. A situação tinha saído de controle. Foi quando um dos meus colegas, o Walmir, que também era alvo constante de chacotas por causa do Ricardo, começou o coro:

– RICHÁRD, PINTO PEQUENO!

E todo o colégio o acompanhou. Ricardo nunca imaginou passar por todo esse ridículo. Desesperado, ele se preparou pra um último ato. Ele me ergueu do chão, pela gola da camisa e começou a me esbofetear. Foram um, dois, três, socos. O colégio se calou. Aproveitando o silêncio, eu disse:

– Bate mais forte, viadinho, to cansado de cosquinha!

Pronto, recomeçaram os gritos. E, alguém gritou:

– VIVA ROGER, VIVA ROGER, NOSSO HERÓI, NOSSO HERÓI.

O colégio inteiro gritou o meu nome. Nesse momento, atrasados como sempre, os bedéis chegaram com seus apitos e nos separaram da multidão. Com o rosto sujo de sangue, eu sorria, à vontade.

Os bedéis assustados pediam para multidão se dispersar, mas ninguém parava. Ameaçavam expulsar os alunos, mas eles continuaram. Fui seguido por uma pequena multidão até a direção.

Enquanto a diretora me ouvia, do lado de fora os gritos continuavam. O sinal foi batido mais cedo e os professores pediam aos alunos para voltar para as suas salas. Só depois de alguns minutos os alunos se dispersaram.

– Finalmente, senhor Ricardo. – disse a diretora – Finalmente conseguimos te pegar. E então, gostou da surra que você deu nele? – E, com um sorriso sarcástico, emendou – Tomara que tenha gostado, pois será a última.

Ele chorava, falava inconsistências, mas a diretora estava irredutível. Que papel aquele valentão estava fazendo. Eu me mantive silencioso, impassível. Era provável que eu tivesse o mesmo destino:

– Pois bem, senhores. Depois do que houve aqui hoje, não há mais clima para que continuem assistindo às aulas. Peça a sua mãe que venha aqui, Ricardo, para assinar a sua transferência. E, por favor, pare de chorar. – Depois, dirigindo-se a mim, disse – Quanto a você, Roger, pelo seu comportamento exemplar durante toda a sua vida aqui na escola, e só por isso, abrirei uma exceção e não farei o mesmo com você. Está suspenso pelas próximas duas semanas e continuará fazendo os exercícios e trabalhos em casa durante este tempo. Estão dispensados.

Saí em seguida, mas o Ricardo permaneceu lá, discutindo com a diretora. Ao abrir a porta, me deparei com meu pai, que na época trabalhava na escola. Já imaginava a surra que ia levar.

– Ele merecia isso. Vamos para casa. – Foram as únicas palavras que nós dois tocamos sobre o assunto. De certo modo, vi no olhar machista de meu pai um certo orgulho por ter humilhado o valentão do colégio.

Ao sair, encontrei uma das minhas poucas amigas, Andréia, que me abraçou. Eu tinha até esquecido, no meio de tanta confusão que aquele era o dia de seu aniversário. E, no meio do abraço, ela me sussurrou:

– O aniversário é meu, mas quando você voltar, eu te darei um presente. Temos muito orgulho de você, Roger...

E saí da escola, com meu pai segurando minha mão, pensando em Andréia e na menina de olhos bonitos.

Andréia foi a primeira mulher que tive, duas semanas depois, numa chuvosa tarde de abril, aos doze anos. E a menina de olhos bonitos, essa esteve comigo em muitas histórias. Mas isso é assunto para o próximo post...

Nesse dia eu conheci o significado da palavra Glória e, a partir desse dia, fui conhecido pelo apelido de Herói. E nunca mais pensei em usar a faca de cabo preto...

(Continua...)


Rabiscado por Poeta Matemático

1:31 AM

Lembranças de Infância - Parte I

Era um dia de março, do distante ano de 1997, quando eu passava pela pior crise de depressão de minha vida. Não era poeta e nem passava pela minha cabeça ser matemático. Naquele momento, a única coisa importante era a faca de cabo preto que eu segurava em minhas jovens mãos. Eu tinha então doze anos.

Naquele momento, não sei com que força, mas sabia exatamente os motivos que me fizeram decidir encerrar minha vida. E, por isso, segurava fortemente a faca de cabo preto com ambas as mãos. A minha solidão e a incompreensão de minha constante tristeza me fizeram tomar aquela nefasta resolução.

E, naquele momento eu respirei fundo e olhei para a faca de cabo preto. Não podia errar ou vacilar. Era preciso acertar da primeira vez. E, então, lentamente encaixei a faca entre as costelas, do lado esquerdo do peito, onde eu sentia o coração bater. As mãos jovens e finas tremiam, mas minha mente estava serena. Podia contar cada uma daquelas costelas e, no meu torso nu, as minhas omoplatas se destacavam em meu corpo esquelético e frágil.

Sentia um certo prazer e emoção. De certo modo, a solidão me ajudava a sentir cada pedaço do ambiente, a minha casa humilde e sem reboco, no meio de tantas casas humildes e sem reboco de mais um bairro pobre e perigoso do Distrito Federal. E, ali, naquela manhã serena de março, eu ainda ouvia os tiros da noite anterior, os gritos de horror do vizinho, brutalmente executado em frente a minha casa. Ouvia também os roncos de meu tio e sentia o cheiro rançoso de cachaça e suor, que já pareciam fazer parte de sua personalidade.

Ainda ouvia as zombarias de meus colegas, os insultos de minha irmã, e no corpo eu carregava as marcas da última agressão: sob as costelas, duas marcas arroxeadas feitas por um cabo de vassoura. Eu era o principal brinquedo dos alunos do colégio. Eles enfiavam minha cabeça na privada, pregavam bilhetes em mim, me chutavam, me xingavam, cuspiam em meu lanche....

E isso já acontecia nos últimos cinco anos. Dos sete aos doze anos eu fui insultado, humilhado, escorraçado, espancado, julgado de todas as formas. Experimentei todos os tipos de humilhação.

Tudo por ser inteligente...

Não podia ser só inveja ou só vontade de usar alguém como motivo de chacota. Havia algo de demoníaco nas atitudes de alguns deles. Eles sentiam um certo prazer inexplicável em me humilhar. Eu via nos seus olhos o brilho de usufruir do poder de manipular e usar um ser humano como quisesse. E, sem amigos, eu era o alvo mais fácil e certo desse prazer doentio. Por isso eu segurava a faca de cabo preto.

E, ali naquele momento sublime, o prazer era meu, o poder era meu, pra dar o fim nesse sofrimento ou para sofrer ainda mais. E eu iria exercer este poder.

Foi com essa resolução que eu passei lentamente o fio da faca sobre minha pele branca. Eu queria saborear cada momento. E, uma pequena dor, levemente suportável, uma dor fina e aguda, do meu corpo reagindo ao seu suplício apareceu, doce e saborosa.

Logo depois veio o sangue, muito vermelho, primeiro na pele e depois escorrendo num filete rubro e adocicado. Agora faltaria pouco.

Foi então que tirei dali a faca de cabo preto e mantive-a a uma boa distância de minhas costelas. Eu estava preparando o golpe fatal que ia me libertar para sempre. E, com um sorriso nos lábios e num movimento rápido me preparei para acertar a faca. Quando o telefone tocou...

– Cadê você? Seu professor de judô está te esperando, disse que você não veio. É pra isso que eu pago suas aulas? Pra você ficar vadiando em casa o dia inteiro? Venha pra cá, agora...

– Sim pai, estou indo, eu vou pegar o ônibus agora...

E, foi aí que chorei pela primeira vez em toda minha vida.

*****************************************************************

Era já meio-dia e eu saía da aula de judô, suado e taciturno como sempre. Tinha de correr para voltar para casa a tempo de almoçar e voltar para as aulas à tarde. Foi quando o professor me fez parar.

– Não tenha tanta pressa, Roger. Precisamos conversar...

– Desculpe sansei, mas eu tenho aula à tarde, preciso correr para almoçar.

– Não se preocupe, eu conversei com teu pai. Eu o disse que você almoçaria comigo hoje e que não iria para a aula. Tenho um treinamento especial para você...

– Professor, o senhor sabe que não sou um bom judoca. Sempre apanho de todos os adversários. Não há motivo para um treinamento especial.

Ele sorriu, olhou para o grande quadro de Jigoro-Kano que havia na parede e me disse:

– Você sabe a história do Jigoro-Kano, o inventor do Judô? – Parou brevemente e disse – Era um rapaz franzino e atarracado que foi aprender a milenar arte do Jiu-Jitsu. E, com afinco, logo se tornou um dos melhores mestres de seu tempo. Porém, ele viu que a luta era muito violenta. Muitos lutadores saíam feridos do combate. Então, ele criou uma nova arte marcial, baseada no Jiu-Jitsu, onde os mais fracos poderiam lutar em igualdade com os mais fortes, pelo aperfeiçoamento de seus golpes. Foi aí que nasceu o Judô.

– Eu lhe ensinarei uma técnica especial, que é ensinada apenas a grandes lutadores. Com ela você será invencível, mas precisará de sabedoria para usá-la para o bem. Ela se chama A TÉCNICA DOS SETE GOLPES MAGISTRAIS.

E, foi assim que eu conheci a ordem, que eu conheci o Mestre da Ordem do Guerreiro e o Anarquista. Porém, nessa época eu ainda era só Roger e é a história deste simples Roger que virou ENNF que irei contar. Mas, antes disso...

(Continua)


Rabiscado por Poeta Matemático

12:49 PM

Apesar de estar em estado melhor do que o Judeu, era visível que o Anarquista havia se ferido bastante na luta. O rosto estava meio desfigurado e ele respirava com dificuldade. Algum sangue insistia em sair de sua boca e do rosto ferido.

Antes de mais nada, é preciso dizer que lutas entre membros da Ordem não são muito comuns. Elas se restringem a momentos muito específicos, pois a chance de ambos adversários morrerem é grande. Além do mais, a maioria das Ordens é de índole pacífica, apesar de todos os membros, de uma forma ou de outra aprenderem técnicas de batalha, como as técnicas especiais que o Judeu e o Anarquista usaram.

Ajudei o Anarquista a manter-se de pé. Tinha sido, talvez a luta mais incrível que eu já tinha visto. Pouquíssimos sobrevivem a um ataque especial. Enquanto eu o amparava, os alunos se puseram em fila, em nossa frente, a mando do Professor. A um comando, todos nos cumprimentaram, curvando-se levemente.

– Salve o Grande ENNF, salve o Grande Guerreiro Anarquista.

Com uma voz afetada e gutural, o Anarquista respondeu:

– Que a paz esteja convosco – E me pediu para levá-lo aos aposentos do Mestre. Antes disso eu respondi: – que a tranqüilidade esteja convosco, paz e bem...

Os aposentos do mestre ficavam no mesmo andar da academia, na porta em frente. O Judeu, embora ferido, abriu a porta, seguido pelo Professor. A sala era lindamente decorada, com o teto de vidro que formava uma estufa. No centro havia uma profusão de flores: tulipas, margaridas, begônias, orquídeas e várias outras, cercadas por uma cachoeira artificial, que sempre estava ligada. Também haviam bonsais, e pequenas árvores: pimenteiras, algodoeiros e oliveiras. Logo após, havia uma grande mesa, de cedro, sobre a qual descansava um retrato imenso, a óleo, do Mestre. As paredes eram ricamente decoradas de vermelho, e as colunas angulosas eram folheadas a ouro. Grandes quadros com dizeres em japonês, alemão, francês, português e hebraico, com molduras de folheadas a ouro e prata enfeitavam as paredes. Algumas trepadeiras subiam pelas paredes, chegando ao teto.

Porém, o detalhe mais imponente da decoração era a grandiosa armadura samurai vermelha que descansava ajoelhada, num os cantos da sala. O metal vermelho reluzente contrastava com o vermelho da sala, num espetáculo de cores. Era uma linda sala para um grande mestre.

Na mão direita, com dificuldade, o Guerreiro Anarquista trazia a Espada do Guerreiro. Ele desvencilhou-se de mim e caminhou, com a Espada na mão e colocou-a nas mãos da armadura, que estavam erguidas, como a esperar por este ato.

Voltar àquela sala me trazia muitas lembranças. O professor e o Judeu se despediram. Aproveitei para me retirar também, pois achava que minha presença não era mais necessária. Neste momento, o Anarquista retrucou:

– Espere Poeta, precisamos conversar.

– Não creio que minha presença ainda seja necessária, Guerreiro. Você precisa descansar.

– Sim, mas antes eu preciso saber como você se tornou ENNF. Sente-se.

– Sim, Anarquista, é Justo. É o que farei, mas prepare-se, a história é bem comprida...


Rabiscado por Poeta Matemático

8:34 PM

(No último post o ajudante do mestre, conhecido como Judeu, desafiou o Guerreiro Anarquista para uma batalha)

O clima ficou muito tenso no tatame. Os alunos se afastaram do Anarquista, muitos com ferimentos leves e escoriações. O Anarquista estava arfante, mas não parecia ter sofrido nenhum ferimento.

- Isso vai ser muito interessante, não é mesmo? – Era o professor ao meu lado quem dizia.

- Faz já oito anos, não é Jairo? – Disse eu sorridente. Eu sempre simpatizei com ele, principalmente na época em que era um daqueles garotos, que agora estavam atacando o Anarquista. Quando eu me tornei ENNF, ele estava lá, me dando forças. Era um bom homem e sabia fazer muito bem o seu trabalho. Eu nunca soube sua história, sabia apenas que Jairo era um homem que sempre esteve próximo do Mestre.

- E aí, quer fazer alguma aposta? – Nesse momento, eu desviei minha atenção para os dois lutadores. O Anarquista tinha re-arrumado o seu quimono e agora estava cumprimentando o Judeu, que estava muito elegante com sua roupa negra. Jamais havia visto ele lutar, e o Anarquista eu já não via há mais de oito anos.

- Não dou prognósticos. Um ENNF deve ficar sempre “em cima do muro”, não é mesmo? – disse isso sorridente.

- É verdade. – depois disso olhou em torno e me disse - Veja como todos lhe olham, ENNF. Eles estão curiosos pois sempre contamos histórias dos ENNF’s passados e seus grandes feitos.

- Tomara que eu esteja em condições de me comparar a eles, velho. – depois disso, emendei – Vamos observar a luta.

Depois dos cumprimentos de praxe, ambos ficaram em posição de defesa, com a base alta e com as pernas levemente abertas e flexionadas. O Anarquista saltitava, enquanto o Judeu mantinha-se imóvel. Ambos estavam bem no centro do tatame.

O Anarquista começou a rodear o Judeu, que se limitava a girar em torno da perna esquerda, mantendo o Anarquista sempre em sua frente. Depois de alguns segundos, o Anarquista parou, mantendo a guarda, exatamente na mesma posição do Judeu.

O silêncio era absoluto. Os alunos observavam muito interessados todos os movimentos, curiosos pela situação inusitada. Alguns deles massageavam as partes do corpo que tinham sido feridas pelos golpes do Anarquista. Um deles sangrava pelo nariz e era ajudado por um colega.

Neste momento, ambos começaram a se movimentar. O Anarquista e o Judeu bailavam sobre o tatame, num ritmo cadenciado. O som dos seus pés podia ser ouvido como tambores que ditavam o ritmo da dança. Um se aproximava e o outro, recuava. Os dois adversários se observavam muito, mediam as próprias forças.

De repente, o primeiro soco e a ele foram seguidos vários outros golpes. O barulho deles sendo defendidos se misturou ao barulho dos pés que bailavam. Eles se moviam muito rápido, os socos e chutes se misturavam, mas nenhum dos golpes se encaixava. A luta estava muito equilibrada.

Então, veio o primeiro soco, que acertou o Anarquista na boca do estômago. A dor o fez baixar a guarda e, por isso, ele recebeu mais dois golpes certeiros, um gancho no rosto e um chute na barriga, jogando-o para longe.

Pudemos ouvir o grito de dor do Anarquista quando ele bateu numa das paredes. O Judeu correu em direção a ele, para acertar um golpe certeiro. O Anarquista manteve-se deitado. O Judeu pulou, para chutá-lo ainda deitado. O Anarquista desviou-se e, aproveitando uma abertura do Judeu acertou um chute em seu rosto, abrindo o supercílio. Ele recuou alguns passos e o Anarquista preparou um golpe lindo, um chute voador rodado, muito potente.

O golpe ia acertar o Judeu com toda a força, mas ele defendeu com o antebraço, usando a outra mão para puxá-lo pela perna, derrubando-o e preparando um novo soco, na boca do estômago. Mas o Anarquista anteviu o golpe e deu uma chave de braço, mantendo o Judeu imobilizado.

A chave é um golpe muito difícil de sair, em condições normais, mas com a outra mão, o Judeu acertou um golpe no Anarquista, nos testículos, fazendo-o gemer de dor e soltá-lo. Ainda no chão, o Judeu acertou diversos chutes nas costelas do Anarquista, que parecia derrotado. Os chutes se multiplicaram e o Anarquista tentava se defender, sem sucesso. Mais uma vez o Judeu tentou dar um soco no estômago do Anarquista, que conseguiu finalmente se livrar e ficar de pé.

Sem dar chance para que ele se recompuzesse, o Judeu correu em direção ao Anarquista, que recuava. Fez isso até encontrar uma parede. O Judeu preparou um soco, que, após um desvio do Anarquista, acertou a parede, quebrando o reboco e os tijolos. O Anarquista aproveitou-se disse e emendou uma série de bons golpes, socos e chutes que acertaram o Judeu, terminando num grande chute, que fez com que ele fosse arremessado contra a parede, gritando de dor.

A série de golpes havia ferido bastante ambos lutadores. O supercílio do Judeu sangrava e o Anarquista respirava com dificuldades devido aos chutes nas costelas. Seu olho direito estava roxo e o lábio inchado.

O Judeu tirou a parte de cima do quimono, sendo imitado pelo Anarquista, e levantou-se. Depois disso, ele disse:

- Muito bom, garoto franzino. Foi um bom aquecimento. Vamos ver do que você é capaz.- Eu olhei para o professor, preocupado, olhar este que foi correspondido. Isso significava que ele ia usar alguma técnica especial.

O Judeu fechou os olhos e concentrou-se, juntando ambas as mãos, como numa prece. Depois disso, abriu os olhos, mirou o Anarquista e correu em sua direção, enquanto gritava:

- TESOURO DE SALOMÃO!!!

Era um golpe muito potente e surpreendente. O Judeu acertou o Anarquista, com ambas as mãos, no peito, jogando-o na parede, de uma distância de mais de sete metros. O Anarquista bateu secamente na parede, derrubando o reboco e fazendo uma rachadura. Saiu bastante sangue da boca do Anarquista, que tossia.

Surpreendentemente, ele sorriu e disse:

- Tava na hora disso ficar interessante. Deixe-me mostrar se eu aprendi direito o seu golpe. – disse isso e imitou exatamente os movimentos do Judeu, antes de dizer – TESOURO DE SALOMÃO!!!!

Ele acertou o mesmo golpe no Judeu, que também foi arremessado longe, batendo na outra parede e gritando de dor.

Visivelmente ferido, o Anarquista disse, sarcástico:

– Eu agüentei a sua técnica. Será que você agüenta a minha?

Disse isso e preparou sua técnica especial. Manteve-se quieto por alguns segundos, se concentrando. Repentinamente, correu em direção ao Judeu, dizendo:

– BALADA DO ANARQUISTA!!!!!!!

O golpe consistia de um chute duplo, que estava prestes a acertar o Judeu, quando este disse:

– Pare! Você venceu, Anarquista.

Dito isso, o Anarquista parou, ajudou o Judeu a levantar-se e disse:

– Que a paz esteja contigo.

– E contigo também...

(continua...)


Rabiscado por Poeta Matemático

6:22 PM

- Sim, conhecer a academia é importante. Na verdade eu estava com receio de ir lá. Provavelmente eles não sabem o que aconteceu com o mestre. Eles não se sentiram confortáveis com essa troca de mestre.

- Um homem deve seguir o seu destino, Anarquista. Se o mestre o mandou ir lá é porquevocê deve ir. E eu estou curioso para ver as novas instalações. Há oito anos eu não vejo o mestre e desde então eu jamais estive na Academia do Guerreiro. Soube que ela agora fica perto daqui, no andar de um prédio na Asa Norte. Deveríamos ir lá.

- Sim, iremos.

E então começamos a caminhar. Um aluno da UnB deve estar acostumado a andar bastante. Embora eu tenha dito que a academia era perto, eram pelo menos sete quilômetros de distância, um longo caminho para se ir a pé. Não tinha a ilusão de que o Anarquista tivesse carro (em geral os mestres não trabalham) mas fui surpreendido ao segui-lo pelo estacionamento e mais ainda ao ver que ele tinha um Ecosport.

Particularmente, eu preferia ter ido a pé, mas a viagem de carro evitou que nós perdêssemos tempo conversando sobre banalidades desnecessárias. Estávamos correndo um grande perigo por tomar uma decisão tão séria. A morte acompanha de perto aqueles que são contra os desígnios da Ordem.

Durante todo o trajeto não falamos nenhuma palavra. Sabíamos que não seria fácil ser aceitos na academia. Porém, o que mais me preocupava era outra coisa. Aquele jovem mestre carregava um peso grande demais sobre os ombros. Eu tinha dúvidas até que ponto ele estava preparado para resistir em seu caminho.

Também pensava que nossos atos poderiam tanto evitar como fazer cumprir a profecia mais rapidamente. Uma decisão mal tomada nesse momento poderia por em xeque toda o ordem mundial e eu sabia muito bem disso. Será que o Anarquista sabia?

Meus devaneios foram interrompidos com a nossa chegada. Embora fosse cedo, já era difícil encontrar estacionamento naquela quadra comercial e, por isso, tivemos de parar na quadra comercial, distante uns duzentos metros da academia. Depois de fechar o carro, começamos a caminhar, passando por baixo dos prédios da Asa Norte.

Era preciso treinar a intuição nesses últimos segundos e, por isso, me concentrei, sentindo o ambiente. Dessas reflexões, apenas um grande vazio, exceto na direção da academia, de onde vinha uma força muito poderosa.

Finalmente, entramos na quadra comercial, atravessamos a pista e entramos no prédio de dois pavimentos, muito comum nas quadras comerciais de Brasília. Subimos uma escada, decorada com caracateres orientais e que dava numa grande porta de bronze, coberta com metal dourado e prateado. Era o símbolo da Ordem do Guerreiro. Sobre a porta uma placa em que se lia:

PELA GLÓRIA DO GENERAL LEVANTAREMOS OS NOSSOS PUNHAIS

O Anarquista, por me proceder, foi responsável por abrir a porta que dava para um grande espaço vazio, coberto por um grande Tatami coberto por uma lona amarela, onde em torno de 30 pessoas treinavam. Todos pararam, ao nos ver. Eram todos jovens, de 16 a 25 anos, exceto o velho professor, que devia ter seus sessenta.

Me mantive impassível. Minha expressão era séria, mas serena. Olhei ao meu lado, e vi que o Anarquista tremia, com a Espada do Guerreiro na mão. Sorri, brandamente ao ver essa cena, tirei meus sapatos e meias, ajoelhei-me, cumprimentando o professor e subi ao tatame. O Anarquista imitou meus gestos, visivelmente nervoso. Levantei-me e disse com voz forte:

- Venho da parte do Mestre. Trago más notícias - e após uma breve pausa, emendei - ele está morto. Tomo a vossa dor como minha e que nossas condolências sejam vossas. Paz e Bem a todos, em honra e glória à Ordem.

Disse isso e ajeoelhei, cumpriementando o professor mais uma vez. Visivelmente emocionado, o professor disse:

- Como aconteceu tamanha desgraça? Onde está o corpo de mestre para que possamos chorar e prestar nossas homenagens?

- Tudo a seu tempo - respondi com voz grave, ainda ajoelhado. Logo após, emendei serenamente- Existem assuntos mais urgentes a tratar- apontando paa o anarquista, disse - Este é o Guerreiro Anarquista, aquele que foi escolhido pelo mestre para sucedê-lo. A ele deveis prestar honras e agradecimentos.

Houveram risos debochados em toda a sala. Eu mesmo sorri do ridículo daquela situação. Um dos alunos não se conteve e disse:

- O mestre jamais escolheria um garoto franzino pra sucedê-lo. Que tipo de mestre esse garoto poderia ser? Talvez mestre dum circo de pulgas. - A essa declaração foram seguidos muitos risos e deboches. O Anarquita, ao meu lado estava irritadíssimo, à beira da cólera, enquanto eu e o professor mantínhamos a serenidade. Este era um momento capital do qual dependiam todos os nossos planos. Ruidosamente, me levantei e me despi, pegando um dos kimonos brancos que haviam no armário, seguido pelo Anarquista.

- Ainda tem a insolência de vestir as nossas roupas? Querem nos matar de rir?

O Anarquista terminou de se vestir, amarrando a faixa preta quando disse, pondo-se em posição de luta:

- Quem fala muito, faz pouco...

Apenas o silêncio. Eu e o professor nos olhávamos. Neste momento, quatro dos alunos vieram em toda força para nos atavar. Me mantive impassível, enquanto o Anarquista se preparou para atacá-los. Quando estavam prestes a se enfrentar, o professor disse, numa voz tão forte quanto a minha:

- Se quiserem lutar contra entre si, que lutem, mas não ousem encostar um dedo no ENNF - disse isso e apontou pra mim. Meu segredo estava perdido, agora toos sabiam quem eu era. Apesar da gravidade da situação, continuei tranqüilo, esperando o desenrolar dos acontecimentos. A sala foi tomada de espanto. Nenhum deles (exceto o professor) jamais tinha visto um ENNF. Os alunos retrocederam, junto do Anarquista, que também estava surpreso. Foi quando a porta foi ruidosamente aberta e de lá saiu um homem, com seus quarenta anos, trajando um kimono negro e uma faixa grossa vermelha. Era o assistente do mestre. Se chamava Joshua e era judeu. Tinha olhos azuis penetrantes e a cabeça completamente calva. Depois de tirar a parte de cima do kimono, disse ruidosamente.

- Não encostaremos no ENNF, mas se este diz ser o sucessor de nosso mestre, que prove. Lutem entre si e veremos se mentem.

Olhei para o Anarquista para sentir seu espanto. Aquele seria um momento interessante. Os quatro alunos que o cercavam começaram a atacar. O Anarqusita desviou de todos os golpes e, com apenas quatro, derrubou todos eles. Os alunos se levantaram rapidamente, sendo novamente derrubados um a um.

Mais alunos se juntaram aos primeiros e, em alguns segundos, não era mais possível saber quantos deles estavam cercando o Anarquista. Ele derrubava todos um a um, golpe atrás de golpe. Essa luta durou alguns minutos, depois dos quais o Assistente do Mestre disse:

- Deixemos de lado essa estupidez. Lute comigo Anarquista, e veremos se você é o sucessor do mestre.

(Continua)


Rabiscado por Poeta Matemático

9:02 AM

Era dia 04 de janeiro, uma quarta feira relativamente nublada, mas muito agradável. Eu não tinha aulas na Universidade, mas fui assim mesmo pois tencionava conversar com o Anarquista mais uma vez. O ônibus, surpeendentemente vazio chegou a parada por volta das 7:45. Fiquei ali, olhando para os belos jardins da universidade, pensando no que diria quando encontrasse o Anarquista. A raiva tinha passado e, depois de pensar bastante cheguei a conclusão de que devia ajudá-lo. Ora, eu não perderia mais uma chance de peitar a Ordem do Dragão de frente...

Mas isso me fazia lembrar de certas coisas qeu eu já devia ter esquecido? Foi muita sorte eu não ter morrido na última oportunidade, quando a Ordem do Dragão já tinha decidido pela minha eliminação. Será que eu teria sorte mais uma vez? Eu sabia que entrava num jogo arriscado, talvez arriscado demais. Há muito tempo eu tinha aprendido que a vida de um homem vale muito pouco para as ordens. Mesmo o maior dos mestres estava sujeito a ser morto a qualquer momento. Que dizer de mim, um pobre estudante. Mas eu sabia que eu era um pouco mais do que um mero estudante...

Estava nessas divagações, quando senti um leve estremecimento. A Tranqüilidade tinha voltado e eu tornara a sentir diversas coisas que tinham me abandonado há muito tempo. Sabia que eu era observado e sabia quem me observava. Antes que ele terminasse de se aproximar eu disse:

- Olá Anarquista, que a Tranqüilidade esteja contigo. Paz e bem em todos os seus dias.

Ele sorriu aquele sorriso que eu tinha conhecido no dia anterior. Logo após ele respondeu?

- Que a paz te acompanhe nos teus dias. - Depois disso, ele emendou, alegre e extrovertido - Vejo que estás diferente. Acaso terá acabado seu ímpeto de ontem?

- Jovens são impetuosos por natureza, como sabemos. - Sorri, inexpressivo, enquanto observava um grande monte de flores amarelas. Contemplava-as absorto, sem me voltar para o Anarquista até aquele momento. Depois de alguns momentos eu perguntei - Diga-me Anarquista, o que vale tanto quanto uma flor?

Ele gargalhou alegre, enquanto eu permanecia impassível. Ele viu o ridículo de sua risada nervosa e calou-se. Ficou muito sério antes de responder:

- Ambos sabemos da resposta. Vale tanto quanto o coração de uma mulher, vale tanto quanto o amor verdadeiro.

Não o deixei respirar antes de continuar

- Se o amor é tão frágil como uma flor, tão importante quanto o coração de uma mulher, como pode ser tão forte e tão efêmero, tão sagaz e tão pacífico, tão simples e tão contraditório? Acaso isso não é uma incongruência? Acaso não uma contradição? Me diga, o que vale mais, o amor ou a própria vida?

Ele me interrompeu, irritado.

- Você sabe que um mestre não tem o privilégio de amar. Amor é perigoso demais para alguém que tem tanto poder, que é responsável por tantas vidas. Podemos nos entregar apenas à luxúria, e mesmo ela é repudiada por muitos mestres. A maioria de nós somos abstêmios.

- Então você sabe o tanto que é difícil para eu tomar a decisão de te ajudar, Anarquista. - Disse isso e arranquei uma pequena flor amarela. - A Vida dos Punks é tão frágil quanto uma flor...

Vi o tanto que aquilo causava imensa tristeza naquele jovem mestre. Mas eu era um mestre também e sabia que aqui era um aprendizado indispensável. Só o sofrimento pode dizer o tanto que é importante a alegria.

- Eu já esperava essa resposta. Desculpe incomodá-lo, Matemático. - Disse isso e começou a andar, lentamente, com uma tristeza enorme.

Virei-me para vê-lo ir, antes de dizer, tranquilo e seguro...

- E quanto vale o sorriso de um amigo?

Ele parou. Vi seu estremecimento e o senti na voz quando ele respondeu:

- Vale tanto quanto a lágrima de um homem.

Ora, aquilo relamente era uma cena patética, mas poética ao extremo. A decisão estava tomada, eu e o Anaquista lutaríamos contra a Ordem do Dragão, até o fim. Após isso eu disse:

- Certo Guerreiro, acho que devemos conhecer sua academina, não? Como pode um general afastar-se de seu exército?

(continua)


Rabiscado por Poeta Matemático

9:45 PM

Eu o vi sair e fiquei alguns segundos ali, ainda sentado na cadeira. Alguns ainda me olhavam, outros não ligavam muito. Depois disso, levantei e saí. Eu precisava espairecer um pouco. Aquele dia tinha começado mal e estava piorando rapidamente.
Após sair da biblioteca, comecei a andar pelos jardins da universidade. Andei em direção à reitoria, logo após em direção ao Lago Paranoá. Eu jamais fico com raiva por mais de cinco minutos e após as palavras do Anarquista me entreguei a uma reflexão profunda. Não era fácil estar na posição dele. Ele seria pressionado pela Ordem do Dragão em breve para ir ao Haiti. A situação estava muito feia.
O Anarquista estava entre a cruz e a espada e precisava de ajuda. A tal da biografia era só um pretexto para me pedir um pouco de apoio. Poucos se voltam contra a Ordem do Dragão e ele provavelmente se voltaria. Ele sabia que eu tinha me voltado e sobrevivido. O problema era saber o quanto dessa história ele sabia.
O pior foi lembrar de P. e de meu antigo papel na Ordem. Já havia cinco anos que eu não me aprofundava nos conhecimentos da ordem, por opção. A Ordem do Dragão quase me matou. E agora, eu sabia, era preciso recorrer mais uma vez à Tranqüilidade...
Eu estava agora às margens do Lago Paranoá. Muitas lembranças da Ordem remetiam àquele lago e era lá que eu estava mais uma vez.
Ali, próximo à margem havia uma velha e torta goiabeira. Sentei ali, fechei meus olhos e inspirei tranquilamente o ar da manhã, que estava se aquecendo rapidamente. Ouvi o ruído leve do ressonar do lago, como uma respiração fraca e inconstante. Ouvi, ao longe o barulho de um barco, vozes e carros.
Era preciso descansar meu espírito mais uma vez, para aprofundar o discernimento. Ali, sentado abaixo de uma goiabeira eu me ajoelhei, fechei os olhos, uni as mãos e deixei a minha intuição agir. Com os olhos fechados eu me levantei e andei. Pequenos passos, a princípio, depois grandes passos apressados. Logo logo eu corria, com os olhos fechados, sem saber para onde ia. De repente parei.
Respirei forte por alguns segundos e então abri os olhos. Era uma cerca, bem à minha frente. Eu tinha me afastado bastante do lago e a cerca separava a área preservada em volta do lago da pista. Eu tinha corrido por mais de seiscentos metros de cerrado, com os olhos fechados, sem tropeçar ou bater em nenhum galho e minha intuição tinha me guiado até ali. Fechei os olhos mais uma vez e tentei sentir o ambiente. Eu vi, com os olhos fechados, as árvores, senti os pensamentos das pessoas, senti o chão e as energias que quase ninguém vê.
Usei meus braços como radares. O que eu precisava fazer era muito importante e inadiável. Em um lugar propício, fiz um círculo com o pé, no chão, limpei das folhas e me sentei, tudo com os olhos fechados. Comecei a fazer uma antiga e poderosa dança com os braços. Era preciso falar com P. a qualquer custo e aquele era o momento.
Rodei em várias direções, sempre sentido as energias das pessoas conhecidas. Era muito difícil achar a energia de uma pessoa em particular entre seis bilhões de pessoas. Minha sorte era que a energia de P. era muito poderosa e especial. Poderia sentí-la de qualquer parte do mundo, mas havia cinco anos que não fazia isso.
De repente, parei. Era ela. Onde ela estaria?
Eu a vi, no meio de muitas pessoas de uma cidade muito movimentada. Era a Alemanha, tinha certeza pelos sotaques que tinham. Eu vi que ela me sentia. Ela parou. no meio da rua movimentada. Eu ouvi as buzinas dos carros e a vi quando, quase sendo atropelada, ela parou um carro com a mão. Era P. e estava muito mais poderosa.
Foi quando ouvi um sussuro leve: Ainda não, ela te espera.
Senti o celular tocar. Um sorriso tomou conta de meus lábios. Era a punk que me ligava.
- Onde vc está?
- Estou num bar prómíscuo bebendo cerveja.
- Amor, vc tem dois defeitos muito graves: Vc não bebe cerveja e não sabe mentir...
- Certo, mas a história é comprida e não tô nem um puco a fim de contar agora. A aula acabou?
- Sim, faz tempo. Por isso eu tô te ligando e pq eu tava a fim de fazer uma coisa...
- E vc está a fim de q?
- Vc sabe...
- Então me encontre naquele lugar...
- Em vinte minutos...
Desliguei o telefone
Era estranho, mas mesmo sem ter falado com ela eu sabia exatamente o que tinha de fazer. E faria depois de cumprir minhas obrigações. Sem falar que já tava de saco cheio daquela universidade. Levantei e fui...
(Continua...)


Rabiscado por Poeta Matemático

6:26 PM

Sobre Como o Poeta Matemático e o Anarquista se Reencontram Após 10 anos (parte II)

Para compreender essa parte da história, é preciso ler a primeira parte.





- Dez anos? – eu disse, um pouco surpreso – Ora, não era de se estranhar! Quase tudo mudou nesses dez anos...

- De todo modo, acho que você ainda não se lembra de mim.

Ele disse isso e parou, em frente à biblioteca, que pra mim parecia um grande templo japonês. Na verdade, isso tinha um sentido completamente metafísico que eu não podia compreender naquele momento. Só sei que olhei mais uma vez praquele grande prédio (que eu chamava carinhosamente de Templo de Euclides, não sei até hoje porquê...) e, nesse olhar, vi que mudava para sempre meu destino, naquele momento. Ora, aquele interessante personagem, que me conhecia, me intrigava estava ali para me fazer perceber alguma coisa muito importante.

- (censurado)! – disse isso cheio de entusiasmo - Esse é o seu nome, não é? Lembrei-me agora. Você lutava judô comigo, há muito tempo atrás, na academia do sansei (censurado). Ora, faz muitos anos mesmo! E o que você tem feito? Como sabe, eu estou estudando para ser matemático.

A conversa a partir daí tomou um tom jovial, de dois amigos que se reencontram.

- Bem, eu estudo aqui também, moro na CEU. Sou aluno de Relações Internacionais. De vez em quando te vejo ir para a aula de natação. Hoje em particular achei que seria um bom momento para conversarmos.

- Vamos entrar, acho que posso te pagar ao menos um pão de queijo, não?

- Não pode, eu faço questão de pagar...

- Então cada um paga o seu e ninguém fica chateado...

E assim conversamos amigavelmente, por mais de vinte minutos. Não eram assuntos importantes, urgentes ou sérios, eram apenas lembranças de dois velhos amigos que se reencontram. E como essas lembranças são sólidas para aqueles que as viveram! Ora, num dia completamente nebuloso para mim (eu detesto a universidade) eu tinha sido surpreendido por um interessante acontecimento. Na verdade, nossa amizade jamais tinha sido sólida e foi com surpresa que eu vi como estávamos nos dando bem.

Porém, algo me deixava com uma pulga atrás da orelha. Talvez fosse o tom dele, algum tipo de grande preocupação, ou a certeza que ele sabia mais do que dizia. Então, minha amabilidade inicial foi substituída por uma irritação profunda, que tomou conta de mim. Foi por isso, que grosseiramente e sem nenhum motivo eu fiz a seguinte pergunta:

- Mas, o que você quer de mim? - Eu disse essas palavras secamente, num tom exageradamente sério. Ele percebeu isso e sorriu desdenhosamente.

- Ora, vejo que não me enganei, matemático. Você é transparente, exatamente como eu supunha. Homens assim são raros hoje em dia. Eu vim te fazer uma proposta, mas queria que você pensasse muito bem nela. Quer escrever minha história?

Me senti um pouco surpreso e um pouco intranqüilo. Não sabia o que responder, mas, em uma atitude de orgulhosa defesa disse petulantemente:

- Não me tome como um escritor de biografias. Quero apenas sua sinceridade. Se você me convencer de que a sua história é boa, terei prazer em escrevê-la. Senão, espero que não fiques ofendido.

Eu não pude perceber o que ele pensava através de sua expressão. Só sei que, ao vê-lo pegar a mochila, achei que ele ia embora sem dizer palavra. Porém, ao contrário, ele a pôs sobre a mesa em que lanchávamos, tirou um comprido e estreito volume enrolado em panos e o desenrolou sobre a mesa. Era a Espada do Guerreiro.

Eu levantei ruidosamente da mesa, derrubando a cadeira. Meus olhos estavam carregados de ódio. Coloquei-me em posição de luta, como não me punha há mais de sete anos e gritei assustando todos os que estavam na lanchonete:

- Assassino! Assassino! Você matou nosso mestre para tomar a Espada do Guerreiro. Quem é você? Eu vingarei a morte de meu mestre, desgraçado! – disse isso e logo após escarrei ruidosamente na sua cara.

Ele levantou-se lentamente, enquanto se limpava com um guardanapo e disse, num misto de fúria e vontade e desejo de reconciliação:

- Insolente! Você não me assusta com essa posição. Se eu quisesse, mataria você e todos nessa sala. Eu vim para conversar, por isso peço que sentes e me escute.

O tom no fim me fez me acalmar. Peguei a cadeira no chão, mas ainda com ódio levantei e pedi desculpas aos que tinham me cercado nesse momento.

- Diga rápido, pois tenho pessoas à minha espera.

- Eu não matei o mestre. Eu estive com ele no Ano Novo. Espero que você não tenha pressa, tenho muito para lhe explicar. – disse isso e me contou seus últimos momentos com o mestre.

Eu o escutei, silencioso, mas percebi que ele dizia a verdade. Quase chorei quando ele contou sobre a morte do mestre. Escutei particularmente a parte da ordem do Dragão. Há muito tempo eu tive meus problemas com a ordem e não queria voltar a tê-los. E a narrativa me fez lembrar de P., com quem eu tinha tido um intenso relacionamento, há alguns anos. Após ele terminar toda a história eu perguntei:

- Foi P. quem disse pra você me procurar, não foi?

O sorriso desdenhoso voltara.

- É, matemático, você não perde nada. – depois de uma pausa ele continuou – Foi ela sim, há alguns meses. Desde então eu tenho te procurado. Você é um dos maiores mestres da Tranqüilidade, deveria saber que eu viria.

- Não sou mestre de nada. Deixei a ordem há tempos. Agora eu sou homem de uma mulher só.

- A Punk é especial mesmo. Não devo detê-lo, matemático. Eu o procurarei amanhã e espero uma resposta. Pense bem no que eu te disse, a profecia pode se cumprir a qualquer momento.

Disse isso e se foi. Eu fiquei mais alguns minutos pensando em tudo que tinha visto e ouvido. Era a História que eu estava prestes a escrita. Havia muito o que pensar...

(continua)...


Rabiscado por Poeta Matemático

6:24 PM

A última parte da história parece completamente absurda e, de fato, para aqueles que não conhecem a Ordem e todas essas coisas, pode parecer. O que posso dizer sobre esses fatos narrados é que, surpreendentemente, são todos reais, tirando certas partes em que minha mão de escritor modificou convenientemente para esconder os reais personagens dessa história.
Na verdade, para mim foi uma grande surpresa quando reencontrei o Anarquista depois de 10 anos e ele me contou essas coisas. Foi mais surpreendente ainda quando ele me confiou a tarefa de contar a história no meu blog, mas assim eu me adianto. Vamos aos fatos, na ordem que aconteceram.
Era dia 03 de janeiro e eu andava distraído como sempre, depois da aula de natação. Na verdade, não tinha sido bem uma aula, pois o meu exame (e o de todos os alunos) estava vencido e, por causa da greve, não o renovei. A aula resumiu-se a dar um prazo para que os alunos fossem ao médico, fazer o tal exame, necessário à prática de natação.
Foi justamente por isso, que às 8:30 (vinte minutos depois do início da “aula”) eu estava andando em direção à biblioteca, para renovar os livros que estiveram comigo durante a greve. Não que eu não tivesse tido tempo para lê-los, mas eu pretendia escrever um artigo sobre educação e esses livros eram importantes como base teórica para tal.
Do Centro Olímpico (onde ficam as piscinas) à biblioteca são quase dois quilômetros. Deste modo, eu teria muito tempo para aquelas divagações e especulações que sempre estão na alma dos caminhantes, em particular na minha. Pensava em mil coisas, muitas delas absurdas. Pensava no meu futuro, como escritor, ou como matemático, ou como Imperador do Mundo, ou em histórias fantásticas que eu tinha lido, ou inventava ali mesmo.
Na verdade eu tenho o hábito de imaginar muitas coisas enquanto eu caminho, mas o que mais me apraz é observar as pessoas que estão à minha volta. Eu gosto muito disso. Eu imagino uma composição com o ambiente, como um retrato espontâneo que se faz do outro, que eu vou caricaturizando, recompondo, recriando e, no fim, tenho uma imagem poética de quem eu observei que serve de substrato para personagens, romances, poesias...
Pois bem eu estava fazendo justamente isso, naquele dia 03 de janeiro. Eu olhava o ambiente, a grama levemente molhada, o friozinho bom do começo de janeiro, as frutas e flores, os carros andando letárgicos. Onde eu estava, dava pra ver bem o Congresso e a Torre de TV e ambos ambientes me faziam imaginar uma série de coisas.
Mas eles saíam da mente bem depressa. Me lembro de ter visto uma jovem muito bonita, que passou por mim e me olhou nos olhos, me lembro de um cachorro vira-lata, de um carro de vidros espelhados. Tudo isso acabou virando histórias que se perderam em minhas divagações.
Me desculpem, mas eu ainda não me descrevi. Acho que é mal de escritor, falar do que vê, mas nunca falar de si. Na verdade é difícil se descrever. Acho que posso passar uma imagem estilizada e romântica demais, ou caricata demais, ou, o que é muito pior, simplória demais, o que não corresponde à realidade. Vou tentar ser o mais isento possível nessa descrição.
Bem, eu não me considero bonito, nem feio. Na verdade, às vezes eu fico mais feio de propósito, pra afastar pessoas que eu não tenho afinidade e que só se interessam em coisas como beleza e ostentação. Tenho olhos castanhos escuros e uso óculos, não por necessidade (poderia muito bem usar lentes de contato), mas acho que assim meu olhar fica mais incógnito. Tenho dentes muito brancos e relativamente tortos, mas sempre sorrio com grande franqueza. Na verdade, às vezes acho que sorrio demais e isso incomoda certas pessoas. Mas meus amigos de verdade sempre riem comigo, mesmo nas piores desgraças. Sou um eterno sorridente. E isso se reflete no meu humor. Eu jamais fico com raiva de alguém por mais de cinco minutos. Embora a juventude acentue certos arroubos que me fazem parecer mais irritado ou arredio do que realmente sou, quem se preocupa em conversar comigo por mais de cinco minutos sabe que sou uma pessoa muito alegre e expansiva, que conta boas piadas, faz caretas e que está sempre pronta para se divertir. Mas eu tenho o defeito da timidez. Sou um tímido convicto. É com muita força que faço novas amizades em lugares em que ninguém me conhece. Mas essa timidez é um artifício para ficar observando as pessoas sem ser notado. Faço todo o possível para desaparecer e, assim continuar fazendo meus retratos mentais. Tenho estatura mediana e atualmente estou um pouco acima do peso, porém, em toda minha vida eu fui franzino. Naquele dia eu estava com uma bermuda cinza, chinelos e uma camiseta surrada, carregando minha velha mochila nas costas.
Outro traço marcante de minha personalidade é a minha intuição. Muitas vezes em minha vida eu tomo decisões por impulso e, paradoxalmente, eles costumam estar corretas. Pareço sempre prever as coisas, o momento certo pra encontrar alguém, adivinho o lugar interessante, o acesso mais rápido pra algum lugar, a hora certa de se entregar ao beijo, essas coisas que todos chamam de coincidências. Naquele dia em particular eu estava quase prevendo que ia acontecer uma coisa emocionante. E isso estava impregnado em mim e, achava, podia ser sentido à distância. Era como que uma espera absurda por algo, um evento, um acontecimento marcante.Absorto, andando lentamente, quase me arrastando, não notei a interessante figura que passou por mim. Era um jovem alto, em torno de 1,85m cabelos castanhos, curtos e lisos e andar firme. Trajava uma camiseta regata azul, uma calça impecavelmente branca, feita de um tecido duro, quase tanto quanto o jeans, que estava meio folgada. Como eu, ele usava chinelos. Em sua pressa ele si distanciou em minha frente, algo como dez ou doze passos. Repentinamente parou.
Eu não sei porque me interessei particularmente por esse tipo. Não o achei bonito, nem galante, nem sequer achei-o digno de nota, mas uma coisa aqui dentro me dizia que ele era muito mais do que aparentava. Foi com grande surpresa que o vi parar. Ora, isso significava que eu deveria continuar andando e disfarçar minhas impressões sobre aquela figura. Foi o que eu tentei fazer. Andei mais depressa e, ao passar por ele desviei o olhar para a direita, como se lá houvesse algo particularmente interessante. Eu vi que ele percebeu isso e senti que ele sorriu.
- Estava na aula de natação, matemático? – disse, me assustando.
- Ora, como sabes que sou matemático?
- Hum! Sei mais sobre você do que pensas. Diga-me, porque me observavas daquela maneira agora a pouco? – perguntou, com um ar visivelmente interrogativo, mas nem um pouco grave.
Pela primeira vez o olhei nos olhos e vi que ele me parecia ligeiramente familiar. Não sei se era a expressão que era conhecida, ou os traços do rosto. Mas, não sei porque, me senti atraído por ele. Acho que era um caráter carismático que existe em certas pessoas. O fato é que isso, junto do sorriso me fez esquecer minha timidez habitual e conversar com franqueza.
- Não sei, pensava aqui com meus botões, acho que você é um tipo bastante peculiar. Parece que você é um desses tipos saído de romances – disse isso, dando um sorriso sincero.
- É o que achas? – disse ele. Engraçado, eu pensava que você deveria ser um bom escritor.
Senti um certo ar de desdém, mas me mantive firme
- Vais para a biblioteca? – perguntei.
- Sim, era o que tencionava fazer. - disse isso e depois de uma pausa completou: - Não te lembras de mim (censurado)?
Ora, então ele me conhecia. Que interessante...
- Te acho familiar, mas não me lembro de onde.
- Deve ser porque faz dez anos que nos vimos pela última vez.
Continua...


Rabiscado por Poeta Matemático

6:23 PM

- Já parou pra pensar que talvez eu não queira perceber? - Diz o mestre- Já, e isso não me conforta.- Encerremos essa discussão. Ela não faz bem a ninguém. Deixemos a profecia nas sombras, de onde ela nunca devia ter saído.Você não quer ir ao Haiti, eu não vou te nem te pedir, mas sei que outros o farão. Sua presesença em Porto Príncipe é ímprescindível para a garantia da paz.O mestre parou por uns instantes e olhou para o horizonte tristemente. Tinha passado muitos dias com seu querido discípulo e era hora de dizer adeus. Olhou fixamente para o jovem forte que ele tinha se tornado. Lembrou-se de suas palavras de sabedoria, que, às vezes, faziam ele pensar que era o discípulo e não o mestre. De certo modo foi sempre assim, o mestre sempre aprende mais com o díscipulo do que o contrário. E estava aprendendo muito com esse garoto, que hoje era o mestre da Ordem dos Anarquistas, mas que sempre seria seu discípulo fiel. Queria estar lá para ampará-lo, aconselhá-lo, mas o diabetes o tinha impedido de fazer muitas coisas. A amputação da perna foi particularmente cruel.Ele respirou profundamente, passou a mão pela espada e disse, com muita dor:- O assunto que nos trouxe aqui é muito mais prático do que discussões estúpidas sobre a Ordem ou a paz. Diga-me, o que você prevê para o próximo ano?Aquela pergunta pegou o discípulo de surpresa. O mestre sempre soube que ele não era agraciado com a clarividência, como as monjas da Ordem do Véu. Ele tinha pensado muito sobre esse assunto nesses dias de aprendizado com o mestre. Agora, aos vinte e um anos, ele sabia que tinha um papel muito importante na Ordem e que suas decisões poderiam influenciar as vidas de milhares de pessoas. Como responder? Com a intuição? A boca deixou sair essas palavras, como se elas tivessem vida própria:- Não vejo boas coisas mestre, em lugar nenhum. 2006 será mais difícil que 2005, tenho certeza...- Sim, também vejo isso. O mundo não era tão dicotômico há muitos anos. Se Bush tivesse nos ouvido antes de 11 de setembro... - o mestre lembrou-se desse fato com ironia. Ele tinha um ressentimento profundo aos republicanos, desde a guerra - O caminho da paz está cada vez mais tortuoso e as desigualdades cada vez mais cruéis. Esse será um difícil ano. - Parou alguns instantes e perguntou sernamente ao discípulo: - Anarquista, onde repousa a paz?- A paz repousa nos trigais que dançam ao vento. - disse o discípulo, sem pensar.- Boa resposta, meu rapaz. A paz se move com o vento, modificando o curso da História. Você se tornou um grande mestre e enche de orgulho esse velho aleijado. - O mestre pegou a espada que estava ao seu lado e disse: - Proste-se, imediatamente.O discípulo estva visivelmente emocionado. Não poderia ser. Essa era uma grande honra.- Anarquista, de Brasília, herói e defensor da paz, membro honorável da Ordem e mestre dos Anarquistas, é com orgulho que lhe dou a Espada do Guerreiro. Use-a pra defender a paz, a liberdade e a democracia. Use-a para defender os fracos, os humilhados e injustiçados. Dê-lhes a Força, a Redenção e a Justiça. Com essa espada, ofereço também meu grande exército. Dê-lhes ensinamentos sábios, mas ensine-os com serenidade e ombridade. Ensine-os com fé e paciência que só assim lhe reconhecerão como grande mestre que és.O discípulo chorava copiosamente, com os olhos colados ao mato húmido da chapada dos Guimarães. O mestre continuou:- Dou-lhe agora o comando da Ordem do Guerreiro e do Exército dos Cem Mil soldados. Sei que você é um grande pacifista, mas mesmo eles precisam usar as armas quando não há outra escolha. Se a profecia cumprir-se, esteja antento, comande com disciplina e lute com honra que a espada jamais lhe deixará ser vencido. Confie no maravilhoso Exército dos Cem Mil soldados e guie-os como se fossem seu braço. Ele é uma arma poderosa, mas só se seu mestre tiver a sabedoria para malejá-lo. Em suas mãos eu deixo a paz ou a ruína de toda a ordem. De hoje em diante, ocuparpas o cargo de Magnífico (...), o terceiro maior cargo de toda a Ordem.- Mestre...- Não diga nada, deixe-me terminar. Só você pode se opor aos desmandos da Ordem do Dragão. Leve o equilíbrio, como eu sempre levei e, aconteça o que acontecer, esteja sempre do lado de sua consciência.O mestre silenciou-sse e levantou, com um só pé. Ele emanava uma grande energia, que iluminava a noite. Essa energia multicolorida assustou o discípulo, que protegia os própios olhos.- Preste atenção em cada movimento, pois só poderei fazer isso uma vez. Essa é a técnica do Guerreiro Incandescente, que aperfeiçoei nos últimos 40 anos.A energia do mestre se concentrava, enquanto ao longe os fogos de artifício anunciavam o ano novo. O mestre concentrou todo seu poder e se transformou em luz, planando lentamente, subindo para o céu. Quando estava a uma grande altura, explodiu em luz, iluminando toda a Chapada.O discípulo observou tudo isso emocionado. Levantou-se e continuou a contemplar o brilho que ainda tomava conta do céu. Depois veio o vazio e o desespero. Ele olhava para o brilho do céu que vinha das cidades próximas. Todos comemoravam o Ano Novo.O Guerreiro Anarquista pegou a espada, enxugou as lágrimas e pôs-se a caminhar. Tinha de voltar a Brasília imediatamente para se preparar para a profecia e treinar o exército. O mal estava próximo, afinal. Ele sabia que nunca a paz dependeu tanto de uma pessoa. E essa pessoa era ele."Brasília me espere..."


Rabiscado por Poeta Matemático

6:22 PM

– Antes de mais nada, eu preciso saber exatamente o que você andou fazendo nos últimos dez anos – disse o mestre.– Nos últimos dez anos... – após uma pequena pausa ele continua – creio que o senhor já saiba de tudo, estive contigo na Ordem do Guerreiro até os 14 anos, depois um período na Ordem do Dragão, onde aprendi muito e, como você, criei minha própria ordem, a dos Anarquistas.– Na verdade eu sei de muito mais. Sei do verdadeiro motivo de você e aquela menina entrarem para a Ordem do Dragão. A Luxúria é um caminho tortuoso, aprendiz.– O objetivo não era a Luxúria, o senhor bem sabe. A Cópula é uma grande concentração de energia e uma síntese das trocas que comandam o desenvolvimento do universo. O estudo da Tranqüilidade é um requisito importante para o desenvolvimento da consciência. Eu e P. estávamos num período de intenso aprendizado.– Aprendizado que quase lhe matou e a P., algumas vezes...– Eu hoje compreendo isso melhor, mas não me arrependo. Eu tinha apenas quinze anos. Como o senhor queria que eu me portasse?– Entendo rapaz, entendo. E os gêmeos, será que entendem? Eles deveriam viver com o pai, sob sua proteção, não fugidos pela Europa, como cães.– Eu acredito que tudo isso tem um grande propósito. A profecia diz que...– Não ouse tocar na profecia agora, não é o momento ­– diz o mestre com grande irritação.Assustado, o discípulo calou-se.– Sei que você a procurou por todo o Brasil e depois pela Europa. Colocou seus soldados atrás dela por anos.– E ela soube exatamente como fugir...– Sim, mas seu aprendizado deixou muitas conseqüências. Você exala uma força potencialmente erótica, que interfere diretamente nas suas decisões. Essa é uma fraqueza que precisa ser controlada...– Sim, mestre.O mestre calou-se por um instante. Logo após, disse serenamente:– Pois bem, mas acredito muito em seu valor. Você é um dos melhores oficiais da Ordem. Sei do seu excelente trabalho. A Ordem dos Anarquistas é uma das mais eficientes. Sei de suas intervenções no Iraque, Afeganistão, Sul da Ásia (onde fui crucial no atendimento das vítimas do Tsunami e do terremoto do Paquistão) e no Brasil. Ao contrário de quase todas as Ordens, você não segue exércitos ou governos. Vai aos cidadãos levando a vida. Você é diretamente responsável pela vida de mais de 100 mil seres humanos. Essa é uma grande dádiva e um grande serviço aos princípios da Ordem.– A Ordem dos Anarquistas foi fundada justamente com esse intuito: despolitizar a Ordem e descentralizar as nações. Não desejamos a paz a todos os seres humanos? Então porque respeitar fronteiras nacionais? Os grandes mestres têm fracassado em seu trabalho de convencer os governos da necessidade da paz, e muitos tomam decisões em beneficio próprio, principalmente na Ordem do Dragão.– Quantos soldados você comanda?Um sorriso estampou o rosto do discípulo. Ele sabia que o mestre sabia a resposta de cada uma das perguntas, mas mesmo assim as fazia. Deveria haver um motivo oculto em tudo isso.– Bem, eu não comando soldado, descentralizo ações e decisões. Apenas ajudo na coordenação mundial e auxilio na decisão de agir, assim como todos os “soldados”. Ao todo somos 12 mil homens, espalhados por 18 países da Ásia e América Latina, principalmente no Brasil e Índia.– Seu carisma conquistou 12 mil pessoas no mundo. Você sabe o que isso significa? Talvez você seja um dos mais valorosos de nossos oficiais. Apenas estou preocupado com algumas coisas...O olhar de preocupação do mestre deixou o discípulo assustado. Era esse o grande motivo da viagem?– A Ordem do Dragão quer usar seu carisma a seu favor. Eles acreditam que você lhes deve isso, por causa do aprendizado com P. Querem que você comande as forças da Ordem no Haiti.O discípulo ficou visivelmente surpreso com isso.– Mas o general Urano Bacelar, da Ordem do Dragão, tem feito um excelente trabalho, apesar das limitações...– Bacelar não tem muito tempo de vida.Essa declaração deixou o discípulo atônito.– Como assim? Vão matá-lo?– Você sabe que a Ordem do Dragão não trabalha assim. Ele vai se matar. É questão de dias, talvez horas.Silenciam-se os dois. Após isso, o discípulo diz:– Não contava com isso. Não pretendia entrar no Haiti, nem comandar soldados como se fossem cães. Não sou general de exército regular. Como posso ser um comandante militar?– Querem de você um papel estratégico, que entre nas guerrilhas e as destrua uma a uma, com os conhecimentos das técnicas do Sopro do Dragão e do Descanso do Monge. Querem que você mate os líderes das guerrilhas e estabeleça a paz. Em particular, querem que você seduza e mate a comandante (...), partidária de Aristide, usando seus métodos pouco convencionais.– Eu não posso fazer isso – disse o discípulo, desesperado.– Serão ordens do próprio presidente Lula. Ele sabe dos seus esforços pela paz. Ele foi convencido pelos ministros (...), (...) e pelo general (...) de que ninguém mais pode conseguir uma paz rápida e duradoura no Haiti. Ele conta com você para evitar mais mortes.– Seria uma traição aos princípios da Ordem dos Anarquistas. Meus amigos não me perdoariam – as lágrimas caíam dos olhos do discípulo.– Eu não queria ir pra Europa na II Guerra. Fui obrigado por Vargas. Fiz muitas coisas que não queria fazer. Espero que Prestes tenha me perdoado pelo que fui obrigado a fazer com Olga. Estava convencido que, naquelas circunstâncias, a paz não seria alcançada de outra forma. Eu tive a chance de matar Hitler em 1939, quando tinha a sua idade, mas não o fiz. Seis milhões morreram por causa de minha fraqueza. Seu país está em guerra pela paz, embora não apareça no Jornal Nacional, pense nisso.O discípulo silenciou-se. Depois de uma longa reflexão, ele disse:– Estou preocupado com outra coisa. Um pensamento nefasto acabou de me passar pela cabeça. – parou, olhou para o mestre e disse com firmeza – A profecia está para cumprir-se. A Ordem do Dragão quer evitar isso a todo custo.– De novo a profecia. Você não percebe que...– Desculpe mestre, mas acho que é o senhor que não percebe...Continua...


Rabiscado por Poeta Matemático

6:19 PM

Final de 2005, Chapada dos Guimarães, Mato Grosso. Noite fria, um mestre e seu discípulo empenham-se na meditação, nos últimos minutos do ano. No resto do mundo, boa parte da humanidade já comemorou o Ano-Novo e outros o aguardam ansiosamente. Ali, naquele lugar esquecido, o discípulo e o mestre se empenham em desenvolver seus sentidos.
– Porquê você acha que eu te chamei exatamente para esse lugar, exatamente nessa época do ano? – Diz o velho mestre.
– Não sei, sinto muita tranqüilidade vinda de todos os lados. O ano novo é uma época onde a humanidade se preocupa com a renovação, com o refazer e o re-significar. – Diz serenamente o discípulo, sabendo que essa é uma preparação para uma grande lição.
Ambos voltam ao silêncio. O mestre está sentado sobre uma pedra, olhando o horizonte. Ao longe se vê as luzes das cidades mais próximas e pode-se reconhecer o barulho característico dos foguetes. O discípulo se concentra em observar o mestre. Seu semblante sereno continua impassível apesar do frio e das várias horas na mesma posição. O velho mestre, com cabelos grisalhos e o bigode esquisitamente negro. Ao lado sua inseparável espada, necessária para o mestre andar, já que só tinha uma perna.
– Hoje faz 200 anos...
Parou para respirar e depois continuou:
– Em 31 de Dezembro de 1805, os cinco primeiros grandes mestres se encontraram nos arredores de Paris para jurar defender a paz com todas as suas forças. Isso aconteceu logo após a derrota de Napoleão em Trafalgar, na famosa batalha naval em que os ingleses conseguiram a supremacia sobre os mares. Os cinco grandes mestres formaram o conselho dos cinco generais que ainda hoje se reúne em situações de extremo perigo para a humanidade, com o intuito de defender a paz entre os homens. A última reunião do conselho foi em dezembro de 1945, logo após o fim da II Guerra Mundial, há 50 anos. Eu estava lá. Eu vi cada um dos cinco grandes mestres e senti seu grande poder. Eu ainda era jovem e meus mestres reconheciam meu grande talento, assim como reconhecem o seu hoje. Na época, ocupava o cargo de (...), e lutei em campos de batalha na Alemanha, na Polônia e na Tchecoslováquia, secretamente, com ordens diretas de Vargas, a partir de 1940. Enquanto isso, aqui no Brasil, meus mestres e discípulos se empenhavam numa grande batalha para que o Brasil entrasse na guerra, do lado dos aliados. Após o consentimento oficial de Vargas, lutei na Itália, em Monte Castelo, treinando soldados com minha experiência. Foi assim que, no fim de dezembro, eu estive no Conselho dos cinco generais, em Praga. O clima no conselho era terrível. Tinham fracassado prodigiosamente na tarefa de defender a paz. Haviam falhado em dois atentados contra Hitler e Mussolini e, como último recurso, tinham permitido a explosão da bomba atômica no Japão, como única forma de encerrar a guerra. Nos 150 anos das Ordens, mais de 80 milhões de vidas haviam sido perdidas e a paz estava cada vez mais distante. Um dos Generais, o prodigioso (...), se sentia particularmente culpado, pois achava que seus esforços pacifistas na Inglaterra após a I Guerra tinham permitido a ascensão de Hitler e do Nazismo, pois ele tinha silenciado muitas vozes anti-nazistas na Inglaterra com sua influência. Muitas acreditaram que aquele seria o último conselho e o fim das Ordens.
Ele respirou a ar da madrugada e continuou:
– Após essas coisas, fui a Japão, incumbido de reconstruir as cidades de Hiroshima e Nagazaki e estabelecer comunicação com os representantes da ordem que tinham sobrevivido (quase todos tinham sido executados pelo Imperador). Nos anos que estive em solo japonês aprendi muitas coisas com o sofrimento dos sobreviventes. Meu grande mestre, o honorável (...) voltou ao Japão para o projeto de reconstrução e me iniciou na Ordem do Dragão, a mais forte de todas. Aprendi muito em 46 e 47. As minhas maiores técnicas, o Sopro do Dragão e o Descanso do Monge, foram aperfeiçoadas nessa época. Depois disso recebi o título de (...) e recebi essa espada e o comando de um exército com mais de 60 mil homens espalhados pelo mundo. Em meados de 48, me despedi de meu mestre, para criar a Ordem do Guerreiro e abandonar pra sempre a Ordem do Dragão. Marchei a pé ou de carona por mais de 20 mil km, por toda a Ásia, através dos desertos chineses, do Himalaia, Ásia Central, União Soviética, Índia etc. Em 1950 me estabeleci em Israel e por lá fiquei por quase 15 anos, aperfeiçoando os princípios de minha ordem e lutando pela defesa da paz. Criei grupos de discussão entre israelenses e árabes e chefiei dezenas de iniciativas pela paz entre os dois povos. Meu grande sonho foi sempre conseguir um Estado em que israelenses e palestinos vivessem como irmãos, sob um mesmo governo, mas fracassei. Existem coisas que não podemos controlar, o ódio é uma delas. Em 64, um grupo de ultra-conservadores judeus cercou minha academia, que contava com judeus e árabes, e tentou matar a todos nós. Resistimos bravamente por seis horas, judeus e árabes lado a lado, com paus e pedras contra granadas e metralhadoras. No fim era apenas os nossos punhos e espadas contra o ódio. Porém, conseguiram invadir e incendiar a academia. Torturaram meus melhores discípulos, que corajosamente não disseram uma palavra, não deram um grito. Mataram quinze homens e estupraram oito mulheres, antes de degolá-las. Me pouparam apenas por ser brasileiro e da Ordem. Logo após fui expulso do país e vaguei por toda a Europa até 1970, quando meu mestre me convenceu a voltar ao Brasil após mais de 25 anos.
– Achava que finalmente encontraria a paz, ou pelo menos o sossego. Porém, me empenhei junto da Ordem da salvação de mais de 150 perseguidos políticos. A Igreja, no Rio e em todo Brasil escondia os perseguidos e nos incumbia de dar a eles novos nomes, endereços, notícias de parentes. Os tempos foram muito duros para todos nós e vi que mesmo no Brasil as coisas nunca seriam fáceis. Me mudei para Brasília em 1978, fundando minha nova academia em (...), tendo como meus discípulos (...), o grande (...), a famosa (...) e, meu maior discípulo, o honorável (...), entre muitos outros. Você entrou para a academia em 1990, com seis anos e está aqui comigo até hoje. Sempre encontrei muita força e serenidade em você. Diga-me, porquê te digo todas essas coisas?
O discípulo pensou bastante antes de responder...
– O senhor quer me convencer de que os tempos não mudam e que a defesa da paz é impossível?
Um sorriso estampou a face do mestre antes que ele dissesse:
– Não. Eu quis dizer que a vida de um homem é uma dádiva perpétua e que se ele a dedica a paz, mesmo que não a alcance terá vivido com sabedoria. Posso ter fracassado em Israel e disso eu me arrependo, mas hoje sei que a Ordem está mais forte do que nunca na defesa da paz. Está forte também por causa de pessoas como você. Eu tenho visto suas iniciativas pela (...), pelo desenvolvimento das lutas dos (...) e, principalmente na sua busca incessante de conhecimento, com o intuito de (...) no Brasil. Sei que muito do que você faz não é aprovado pelas ordens, mas lembre-se que muitos dos maiores graduados participaram de muitas guerras e se cegaram por isso. Apenas os que vivem em paz conseguem compreender o valor da paz na garantia da paz. Enquanto muitos se cegam pela justiça você abre os olhos para o amor. As Dádivas que Deus lhe deu são muito grandes e acredito no seu valor no presente e no futuro...
– Mestre, – diz o discípulo, visivelmente emocionado, pois jamais tinha ouvido tantos elogios daquele mestre taciturno – sei que existe uma razão muito mais profunda para estarmos aqui agora, mas não me atrevo a perguntar.
– Sim, você está certo. Existe muito mais coisa se saber. Essa pequena história foi apenas o começo...


Rabiscado por Poeta Matemático



*Esse layout é uma criação exclusiva de Bruno Maximus*